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13 de dez. de 2012

Youtube carinhoso

IMAGEM: Wikimedia
Em março do ano que vem o Irã começa a imitar a China e lança o Mehr ("afeição", em farsi), o Youtube local. Como sua colega comunista, a teocracia islâmica vai vigiar pesadamente o serviço para que nenhum sinal de oposição o blasfêmia seja postado. Os chineses têm um clone do Twitter que é muito popular e nunca foge ao controle dos olhos atentos do governo central, o Weibo. A pergunta é: se alguém for pego no pulo postando um vídeo que desagrade ao Ahmadinejad, será tratado com carinho?

31 de out. de 2012

Crônica de uma madrugada tempestuosa

Radcliffe Roye/The New Yorker
Talvez seja o fato de minha mãe estar em Nova York a passeio ou talvez o fato de que já morei nos EUA e tenho amigos por lá. Não sei. Quem acompanha o blog percebeu que me dediquei a ficar de olho no furacão Sandy durante os últimos dois dias. Para me sentir parte do momento e ficar mais próximo do que acontecia, criei um Storify reunindo notícias, vídeos e tweets e fiz uma edição especial do meu podcast Super8ito, dedicada ao furacão. Esse raio de obsessão serviu de lição em muitos aspectos. Boas e ruins, profundas e superficiais, práticas e inúteis.

Começo por uma das últimas coisas que percebi. Sandy já havia causado muitos danos no Caribe, em Cuba, Haiti e outros quatro países. Sessenta e oito pessoas morreram e os danos materiais foram muito grandes também. A culpa está dividida aqui. Nem eu nem "a mídia" prestamos atenção ao que já vinha acontecendo. Porque nós não prestamos atenção a isso antes? Na última segunda-feira eu acompanhei tudo em tempo real e as notícias eram dadas a cada dez minutos, senão menos. Só fiquei sabendo dos números acima, os do Caribe, porque os pesquisei hoje. Essa foi uma constatação pesada. E velha, convenhamos.

Para falar de coisa boa, ficou claro que tipo de ferramenta on-line é mais desenvolta na hora em que vento sopra forte. Disparado, o Twitter foi a melhor fonte de informações durante aquela noite, apesar de várias mentiras que circularam. O governador de Nova Jersey e o prefeito de Nova York faziam atualizações a todo instante, tentando acalmar a população e informar. Quem seguia Bloomberg no Twitter, já sabia que o número de emergência 911 estava sobrecarregado e que deveria ligar para o 311. Imagino que quem estava em casa sem luz e com o smartphone à mão, ficar de olho nos tweets deve ter sido uma ótima maneira de ficar informado.

Checando o Twitter no meio do expediente. Pode, Max?
Sim, circularam milhares de fotos e notícias falsas. Tubarões em Nova Jersey, Bolsa de Valores inundada, funcionários da companhia de energia elétrica foram algumas das mentiras daquela madrugada. Demorava pouco, porém, para surgirem desmentidos, que se não se espalhavam tão rapidamente como a versão original, ainda assim ganhavam uma respeitável repercussão. O esforço para desfazer logo os mal-entendidos foi grande. Revistas compartilharam atualizações de TVs. TVs usavam informações do Twitter (e erravam às vezes).

Outro capítulo interessante e paralelo foi o uso do Instagram. Pela primeira vez, vi esse aplicativo sendo  usado para algo que não documentar bichos de estimação, refeições ou finais de semana incríveis à beira-mar. Os filtros retrô passaram despercebidos. Amaro? Quem liga quando as imagens mostram ruas destruídas, alagadas e desoladas? Para compensar, o Facebook se mostrou lento e sem utilidade nas horas mais críticas. Deixei a rede do Mark de lado e fechei a aba.

Que conclusão se pode tirar disso? Não sei bem, mas o exercício de tentar juntar informações em um só lugar certamente deu muito mais sentido à experiência de assistir a (um lado) do furacão. Devido à própria natureza da imprensa (e da humanidade, eu diria), tudo é muito mais sensacionalista do que a realidade sugere. Nova York não estava completamente no escuro, nem totalmente embaixo d'água. Foram enormes os estragos e os perigos, sem dúvida, mas a tendência é sempre exagerar.

A internet foi vilã ou mocinha? Nenhum. Certamente foi ela um grande fator para que a passagem de Sandy por Nova York fosse melhor documentada do que a pelo Caribe, de países muito mais pobres e com pouco acesso a 3G e smartphones. Mas as câmaras de TV também não estavam lá. Não havia correspondentes brasileiros tuitando ou falando em tempo real do Haiti (que eu saiba). É nisso que devemos pensar. Não só pensar nos porquês de não cobrirmos tão bem notícias que estão muitas vezes mais próximas de nós geograficamente - quanto se ouve falar de Bolívia e Chile? - mas nos porquês de nos sentirmos mais próximos de Nova York do que de Santa Catarina.

Essa é uma pergunta que precisa ser respondida, por mim e por todos nós.



28 de set. de 2012

Estude online nas melhores universidades


Fiz uma lista com as cinco plataformas mais legais de estudo online no Link Estadão. Todas reúnem cursos de universidades importantes, como Yale, Harvard, USP e Unicamp. É bom ficar atento, porque cada vez mais instituições vão colocar cursos na rede, a maioria de graça. Ainda que não seja igual a frequentar um curso real, é ótimo para quem adora fuçar matérias diferentes.

Veja aqui a lista completa: http://ow.ly/e3v4b

25 de set. de 2012

Aspas: Quem é Ronaldo na internet?


Vi essa frase da documentarista britânica Franny Armstrong no Tumblr do Evgeny Morozov:
Sim, a internet é democratizante no sentido em que equipamento barato é democratizante. Mas só porque uma bola é barata e todos podem jogar por aí, não significa que todo mundo é o Ronaldo.
Qual será o equivalente dessas arrancadas no Twitter? Conseguir 1 triilhão de RTs? Proponho então criarmos categorias para a presença on-line. Além de Ronaldo (0,005% da internet), teremos Jacenir, Cafuringa e Obina.



30 de ago. de 2012

Este é um filósofo


Pesquisei "philosopher" na internet. Barbas, togas, rostos sérios e pensativos, ares arcaicos e um pouco entediantes. Esses são os resultados das imagens. "Filósofo" tem resultados parecidos, apesar da troca de línguas.



Tentando no feminino, até que melhoraram um pouco os resultados, apesar da invasora Kim Kardashian e seu decote voluptuoso terem invadido a busca.

Por isso é tão bacana o Tumblr Looks Philosophical. Em cada post, uma foto e um pequeno relato de filósofos de verdade, contemporâneos. Gente que dá aulas e gosta de ioga. Veste roupas normais, vai a jogos de futebol (americano), tira fotos bestas ao lado de estátuas. Ou seja: "One of us!"



Clique:  http://looksphilosophical.tumblr.com/

15 de ago. de 2012

Essa tal de internet


Em 1995, a internet não era como é hoje, cada vez maior, mais dominante e mais cheia de inutilidades. Por isso, os pequenos do vídeo estavam tão otimistas (e certos) em relação ao futuro da nossa querida rede. Sim, compramos cada vez mais on-line, vemos resultados de jogos em muito mais países que a Itália, pesquisamos sobre florestas tropicais (e compartilhamos fotos no Facebook para tentar salvá-las à distância) e somos obcecados por gatos e cupcakes.

Veja como era a internet nos anos 90:

Uol.com.br


Yahoo!

Msn.com

New York Times

30 de mar. de 2012

Sem conexão

A primeira tela deslizou rápido para dar lugar à segunda, quase igual. Traços do indicador embaçaram os pequenos ícones. Ela se sentou devagar, puxando a mochila para a frente do corpo. Ficou imóvel por dez segundos, procurando sinal com o canto dos olhos. Pôs-se a revirar o bolso maior, buscando algo no fundo. Os ícones brilhavam e se expandiam, minimizados e maximizados. Um botão com ondas se acendeu. Procurou, procurou, procurou, mas o telefone não conseguiu achar rede. Sem conexão.

- Você vai fazer a prova?
- Não

Nada mudaria sua feição e postura. Enterrado na cadeira, ele continuou a coreografia sobre a tela brilhante sem pestanejar. Emergiu do zíper amarelo o embrulho prateado, quadrado. Sanduíche de pão de forma, embrulhado em quatro dobras bem-feitas. Escondido pelos óculos feios e antiquados, os olhos dela jogavam a linha naquele mar frio de um olhar fixo. As duras correntes do vidro engordurado prenderam o mármore negro impaciente do rapaz.

O quadrado de pão diminuía e o ícone se acendia e se apagava. Silêncio. Sem conexão. Pessoas desceram do elevador, uma luz se acendeu no fundo do corredor. Rede três gê, rede wi-fi, nada. Melhor desligar e ligar de novo. Uma mordida suave. Anzol perdido jogado entre as cadeiras. E o mar congelado. Nada. Sanduíche sumia, continuavam serpenteando as redes, as linhas e os olhares sem direção.

Desceu vagarosamente o último pedaço de pão recheado, a folha se tornou bolinha. Uma estranha escuridão se operava ao redor da tela suja e dos olhos de vidro dele. Buraco negro onde que deixava tudo para fora, a mochila de um lado e a mão com alumínio do outro. Levantou-se e tomou uma última coragem:

- Que péssima nutricionista que sou. Aconselho as pessoas a comerem bem e estou aqui, jantando um sanduíche. Está errado.

Abriu-se de novo a porta do elevador, o ruído se sobrepôs ao da voz dela. A mochila foi para as costas e ela resolveu recolher a linha. Continuava a brilhar a tela, insistente: sem conexão. E nada.

18 de out. de 2011

Site colaborativo combate o tráfico no México


Entrevistei o mexicano Johnny D., criador de um mapa colaborativo sobre o tráfico no México. Ele não pode revelar sua identidade real porque corre risco de vida.


A guerra do tráfico de drogas no México está longe de acabar e a cada dia fica mais violenta. Neste mês foi noticiado  que uma usuária do Nuevo Laredo En Vivo , um fórum que reúne denúncias e informações contra o tráfico, foi encontrada decapitada, Junto a seu corpo, uma mensagem atribuída à gangue “Zetas”, uma das mais conhecidas e violentas. 

Isso é um sinal de que a população está conseguindo causar algum dano aos criminosos via internet. Já é o terceiro caso de pessoas mortas pelos traficantes por disseminarem denúncias.  Muitos se arriscam a postar, criando uma contrarrede de informação feita por cidadãos, em reação à expansão do poder paralelo.

Um desses sites é o WikiNarco, site que agrega denúncias anônimas com mapas para criar um “wiki” geográfico do crime. Qualquer um pode postar uma denúncia ou notícia anonimamente, registrar-se para receber alertas no celular de crimes que estejam acontecendo por perto e acessar os mapas que localizam os crimes por tipo e por quadrilha.

Por Skype, conversei com o administrador e criador do site, o mexicano Johnny D. Ele não pode contar muito sobre si porque corre sério risco de vida, mas contou como teve a ideia do site e que recursos usou para construí-lo.  

Como funciona o WikiNarco?
O único jeito de a plataforma funcionar é que ela tenha usuários comprometidos em cada cidade e que as  pessoas observem enquanto estiverem na rua indo ao trabalho, à escola. Se quiserem reportar um crime de maneira anônima e sem colocar sua família em risco, o WikiNarco é uma plataforma onde se pode fazer isso. A página está criptografada em SSL, que igual ao do EBay, da Amazon e de todas as páginas grandes. É completamente seguro e anônimo. E podem ajudar ao vizinho, porque uma vez que um crime é reportado, a pessoa pode receber um alerta no celular avisando de algo está acontecendo em sua região. 

Como você teve a ideia?
Se você queria saber sobre uma cidade específica, não podia saber o que tinha acontecido ali. Se queria saber de Monterrey, tinha que fazer uma busca em todos os artigos publicados para saber. Se queria saber de um cartel específico, por exemplo, com os “Z” e em que zonas estão operando, também não conseguia encontrar. Então me ocorreu: que tipo de plataforma oferece informação rápida e precisa? A Wikipédia. Então resolvi fazer uma Wikipédia do crime organizado no México e me deparei com a plataforma Ushahidi, a que uso para o mapa. Foi inventada no Quênia, na África, para monitorar a guerra. 

Você fez tudo sozinho?
A programação básica já estava pronto na plataforma. Todo o resto, como os mapas, as informações, o layout, a adaptação para o México, fui eu quem fez. 

Quantas contribuições você recebeu até agora?
Umas 300.

Como alguém pode fazer uma denúncia?
Qualquer um pode fazer isso, preenchendo um formulário na página. A pessoa pode subir vídeos, fotos, especificar as fontes de onde vêm a informação. Mesmo que você não tenha nada, pode fazer a denúncia. Os usuários da comunidade aumentam o diminuem a credibilidade dela. Cada usuário só pode fazer esse voto uma vez por endereço de IP. Quando se confirma a notícia, o administrador, no caso, eu, coloca a informação como verificada.  

As denúncias tiveram algum resultado? Alguma prisão foi feita?
De prisões eu não sei. Sei que se acontece um assalto em plena luz do dia e a pessoa coloca a rua onde estava acontecendo no Google Maps, a hora e a descrição (tudo isso pode ser feito no site), a informação poderia ser perfeitamente usada pela polícia.

Por fazer esse site, você está em risco real?
Sim, claro. Todos os blogs no México são anônimos. Esse assunto é muito perigoso. Por exemplo, uma das categorias no WikiNarco é “venda de narcóticos”. O usuário pode marcar em quais casa e ruas se vende drogas. Isso não vai agradar muito às pessoas [do tráfico] porque estará visível a qualquer pessoa, até em celulares, em que lugar existem atividades do tráfico. 

O que você pode contar de você que não te coloque em risco?
Sou um mexicano que fez vários projetos de internet, internacionais, por isso tive a capacidade de montar esse sozinho. E também financiar os serviços diversos do site. Muitas pessoas poderiam fazer o mesmo aqui, mas faltam recursos e conhecimento. Já que tenho essa capacidade, vi como oportunidade de ajudar ao México. 

21 de jun. de 2011

Rota de fuga

Mapa interativo sensacional do The Guardian (óbvio) que mostra de onde saem os refugiados do mundo e para onde eles vão. É um ótimo exemplo de como os recursos de GPS, internet e cruzamento de dados podem ser usados em prol da visão geral e do compilamento de dados. E não só como um jeito de criar publicidade personalizada. 

De onde saem os refugiados:


Para onde eles vão:


Vi no Global Sociology Blog

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17 de fev. de 2011

Boa, Bill Clinton

Desde que fiquei sabendo das coisas que o Al Gore anda dizendo pelas Campus Party do mundo, fiquei intrigado com a relação entre internet e democracia. Comprei o livro do Evgeny Morozov, "The Net Delusion" e andei conversando sobre o assunto com amigos e familiares.

Eis que me deparo com Bill Clinton e sua defesa das instituições num congresso da Wired e da Fundação Ford, que aconteceu ontem. Indo na direção oposta aos dos "cyber-utópicos", para usar um termo de Morozov, o ex-presidente americano diz que a tecnologia "precisa estar a serviço da construção de instituições que funcionem". Nos países mais pobres e desestruturados, ela pode ajudar o seu fortalecimento; nos mais ricos, na regulação e controle maior dos processos.

Deu como exemplo a crise financeira de 2008, que aconteceu por um relaxamento nas regras de circulação da informação e prestação de contas das empresas financeiras. Ele não chegou a citar o Egito, mas deve ter falado com esse fato na cabeça. E por que é necessário repetir isso? Porque o consenso hoje é o de que a simples introdução de tecnologias de ponta e o modelo de circulação de informação da internet são  instrumentos revolucionários que fazem qualquer ditadura tremer nas bases. Não é verdade. No Irã, apesar dos protestos e de toda a comoção em 2009, o Movimento Verde nada pode fazer contra a perseguição que o governo lhe impôs depois que a poeira baixou. E como conseguiram identificar os responsáveis? Através dos milhares de vídeos, posts e perfis de Twitter disponíveis da internet.

Internet e smartphone não são iguais a liberdade. São iguais a produtos feitos por empresas voltadas ao lucro. O que é sinônimo de democracia são as instituições fortes que garantem os direitos fundamentais do cidadão e a transparência do governo. Para chegar até esse ponto é preciso muito mais do que banda larga e uma câmera embutida. É preciso esforço criativo e um espírito que esteja desejoso de uma cultura democrática.

ATUALIZAÇÃO: E não é que o Alec Duarte, colunista da Folha e dono do Webmanario concorda comigo? Leia o artigo dele sobre o Egito

*Com informações do Fast Company. Agradecimento a Tatiana Weiss. 

5 de fev. de 2011

Rap da revolução

Segundo reporta o Dangerous Minds, o primeiro rap saído depois do começo dos protestos no Egito saiu recentemente. A banda Arabian Knightz soltou a faixa "Rebel", que tem samples da Lauryn Hill. A respeito dos acontecimentos dos últimos 12 dias, um dos integrantes, chamado Rush, postou o seguinte no Facebook antes do governo derrubar tudo por lá:
Alguns artistas indie já lançaram canções contra a opressão e essas canções foram usadas em campanhas de vídeo [como a da marcha de 25 de janeiro], chamada "Dia da raiva". Alguns de nós foram para as ruas para participar no dia 25. Agora estamos nos estúdios fazendo músicas sobre isso para ter certeza de que o fogo da revolução não seja apagado pelo medo.


Como bem disse o Dangerous Minds, essa é a prova de que nem mesmo o autoritarismo é capaz de parar que quer se expressar hoje em dia. Esse é um bom tema para discussão, aliás. Mais lenha nessa fogueira. Mas que no Egito nada mais pegue fogo e a ditadura caia sem que mais sangue seja derramado. Torcemos muito.

20 de jan. de 2011

Internet e (falta de) liberdade

Algumas pessoas disseram que o texto do post anterior sobre internet e liberdade estava um pouco vago. Concordo. São formulações ainda não bem-formuladas, por mim nem ninguém. Não sabemos das totais possibilidades da internet, como saberemos de seus impactos sociais e políticos? Isso não nos impede de pensar e - principalmente - errar. Mas não devemos desistir de tentar.

Um dos que anda pensando e escrevendo sobre isso é o Evgeny Morozov, colunista da Wired. Outro dia topei com o artigo "Why the internet is a great tool for totalitarians" ("Por que a internet é uma ótima ferramenta para [regimes] totalitaristas"). Aqui, Morozov não só lida com os meios opressivos de controle da internet, como censura explícita e controle de servidores, mas também com a informação que circula "livremente" por redes sociais e afins. Esses dados podem servir para achacar opositores sem grandes custos e sem dispender a inteligência que era necessária na época da Guerra Fria: espiões, agências enormes, interceptações telefônicas.

Mais uma vez, não quero dar uma resposta definitiva. A democracia já era um assunto complexo sem a internet, ficou mais difícil (e divertido) pensá-la com a rede em ação. No entanto, ainda acho que nosso foco deve sempre ser o mundo real e suas instituições. Vejo uma grande pressa em transferir todos os nossos esforços de cidadania para o terreno virtual, um que ainda é relativamente desconhecido e pouco regulado.

Veja dois trechos do texto de Morozov e leia o artigo inteiro, vale a pena:

Calling China’s online censorship system a “Great Firewall” is increasingly trendy, but misleading. All walls, being the creation of engineers, can be breached with the right tools. But modern authoritarian governments control the web in ways more sophisticated than guard towers.

(...)

Superpowers like China have to engage with the global economy. So for them, the best censorship system is the one that censors the least. Millions of people already disclose intimate social data on Facebook, LinkedIn, Delicious, and their Russian and Chinese alternatives—and that’s all the data governments need to pick the right target.

"Why the internet is great tool for totalitarians", de Evgeny Morozov (Wired)

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19 de jan. de 2011

Nada disso, Al Gore


O ex-vice-presidente dos EUA e ativista digital e ambiental (?) Al Gore disse ontem na Campus Party que a "internet é democracia e não pode ser controlada". Lindo. Esse é o discurso mais defendido atualmente, o de que a rede mundial é um território onde as informações devem correr livres e soltas, sem interferência de corporações, governos ou qualquer um. Eu acho que ele está enganado.

Quanto à questão da liberdade, estou com Gore, sem dúvida. Equivocada - de propósito ou não - está a ideia de que a internet por si própria é livre e assim deve ser. Bom, a verdade é que ela pode até ter nascido assim, mas isso acontecia por falta de recursos tecnólogicos, de maneiras eficientes para barrar acessos a conteúdos. Isso mudou, já sabemos bem. Fora a pressão feita por governos pela disponibilização de dados confidenciais.

Outra pergunta importante é: por que a internet deve ser tão livre assim, mais livre até do que o mundo real? Considero desejável que exista de fato a mesma liberdade que o mundo virtual oferece. Não entendo o porquê de sempre se defender piamente a circulação de informação pelas vias tecnológicas e esquecer que talvez a palpabilidade não esteja no mesmo patamar. Dirão alguns: "Mas o nosso mundo está baseado na informação digital hoje". Bem, nosso mundo se baseou em muitas formas de armazenamento de informação. A democracia grega tão (erroneamente) citada como modelo de igualdade política, mal mantinha registros escritos e seu legado sobreviveu firme (mais ou menos).

Do que se trata isso, então? Para mim, de um modelo de sociedade. A transparência não deve se limitar à internet. Não devemos discutir a mudança dos paradigmas de direitos autorais somente para ebooks e mp3. Por que não nos perguntarmos o que está em jogo ao invés de colocar toda a discussão nas plataformas e - no limite - nos equipamentos?

E toda vez que volto ao cerne da questão, volto à pergunta: "Que modelo de sociedade queremos construir?". Esqueçam o iPad, a NET, a Verizon, foquemo-nos no processo todo, nos processos econômicos, sociais, nas manufaturas chinesas. Onde está nossa liberdade?

O modo como ela será construída na internet depende, acredito, em todo o resto. Se alguém pode me acusar de querer desviar a discussão de um processo específico, tenho outra acusação pronta na agulha: estão reificando (fetichizando) a tecnologia para que as pessoas percam justamente a noção de que vivemos processos sociais. Não acreditem que "os gadgets são nossos pastores e nada nos faltará".

Vida pós-internet

Uma questão que tem me preocupado é o que acontece com nossos dados digitais depois que morrermos. A revista do New York Times não só respondeu a todas as questões que eu tinha, como me trouxe novas questões - e preocupação. Uma puta reportagem cheia de dados, personagens e considerações. Com certeza a melhor peça jornalística que li nos últimos tempos. O responsável é Rob Walker, colunista do jornal. Para quem gosta de bom texto, ótimas reportagens e se preocupa com a vida digital após a morte.

"Cyberspace when you're dead", de Rob Walker (NYT)

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30 de nov. de 2010

A fobia dos ditadores

A Sociedade Internacional de Direitos Humanos foi precisa na campanha que criou para falar das ditaduras que ainda existem no mundo. É só olhar as fotos abaixo e entender o diagnóstico: a internet é hoje a maior inimiga de regimes anti-democráticos. Sem dúvida de que ela é uma excelente ferramenta de contra-informação em lugares onde o governo domina todos os canais de informação.

Mesmo em países com democracia consolidada, a internet consegue agregar outros canais de informações que não tem espaço em meios mais tradicionais e mais caros. Exemplo disso são os blogs de política que pipocaram durante as eleições presidenciais de 2010. Novos paradigmas? Ainda é cedo para dizer.

Na ordem: Rober Mugabe (Zimbábue), Kim Jong-Il (Coreia do Norte) e Muammar Gaddafi (Líbia)