13 de jan de 2012

Entrevista com surfistas de ondas grandes para a Personnalité

Minha primeira contribuição para a estilosissíma revista Personnalité foi das mais divertidas. Entrevistei quatro surfistas especializados em ondas grandes para saber de cada qual foi o momento decisivo na água. Os personagens são Eraldo Gueiros, Carlos Burle, Everaldo "Pato" Teixeira e Rodrigo Koxa. Além de me dar conta de que esses rapazes deslzam em ondas do tamanho de prédios (a maioria com mais de 10 metros), invejei sua ligação quase espiritual com o mar. Isso tudo em quatro páginas com as respectivas ondas decisivas na edição de dezembro de 2011.

Para quem tem iPad, basta baixar a Revista Personnalité no iTunes. É grátis.

Só para se ter uma ideia, essa é a onda que o Pato surfou em Teahupoo, no Taiti, em agosto de 2011.




12 de jan de 2012

O livro que dá medo



Por sugestão de Mario Vargas Llosa (mais uma), li nas férias “Madame Bovary”, romance clássico que não conhecia pessoalmente. As quatrocentas páginas voaram em poucos dias. Pouco antes de dormir, dei cabo das últimas linhas e me deitei. Sem saber, cometi um erro. Pesadelos indefinidos piscaram durante o sono todo e claro que me despertei com susto. Descobri que tenho medo de Madame Bovary. 

Flaubert fingiu contar uma comédia de costumes. Essa é a versão medíocre de seu livro. O tema, digo eu, é justamente a mediocridade e o efeito canceroso que ela tem sobre as pessoas. Não há quem se salve disso em “Madame Bovary”. O narrador, os personagens, as emoções, são todos filhos baratos de uma pretensa profundidade. 

O autor criou um universo tão afundado em sua insignificância, mas tão capaz em ampliá-la como um Bat-sinal projetado nas nuvens, que uma raiva subjacente começa a nascer conforme avança a leitura. De onde vem essa vontade de esganar os pescoços desses pequenos-burgueses? Talvez seja causado pela natureza da mediocridade. Ela não se contenta em ser e gritar, precisa reclamar o mundo como seu para continuar viva. E, por definição, a mediocridade conquista a média das pessoas, do “inconsciente coletivo”, do óbvio. Seu maior poder é o de convencer a todos (a maior parte de todos) de que toda a sabedoria necessária para viver está ali, naquele núcleo aparentemente coerente de pensamentos, opiniões e desejos. Na verdade, é um monte de pedaços desconexos e mal-ajambrados de metafísica feita de plástico. Nada mais do que convenções repetidas mil vezes até que se tornassem verdade. 

Três personagens representam o universo do livro:

O boticário: Especialista em coisa nenhuma. Um falso ilustrado que fala rasamente sobre tudo. De tanto falar, no entanto, convence a todos de que sabe das coisas. Não à toa, escreve artigos para o jornal local. 

O médico Bovary: Inofensivo até demais. Não pergunta, não questiona. Nunca está errado (quase nunca) porque nunca diz nada com firmeza. Serve de vácuo perfeito para a vaidade do boticário. Sua placidez asinina enerva sua já insatisfeita esposa ainda mais e a impele a fazer tudo o que faz no enredo. 

Madame Bovary, a esposa: É quem mais se veste dessa mediocridade. Transforma sua pouca capacidade mental e espiritual (emocional, por que não?) em tramas perversas de traição. Gasta o dinheiro que não tem em nome de um amor que sabe existir apenas nos romances baratos. 

“Madame Bovary” me causa pesadelos. Me assusta. Me mete medo porque é como um fantasma que assombra tempos distantes e ao mesmo tempo o presente. É a mesquinhez de alma irradiando-se impiedosamente pelos eixos do tempo e dos costumes, montada na mediocridade perversa que o dinheiro cria. Daquela França do século XIX até os dias de hoje, ficamos indubitavelmente mais ricos. Quem serão, então, a Madame Bovary, o boticário e o Dr. Bovary dos nossos tempos? Ainda vou perder muito sono.

3 de jan de 2012

Matéria na Vida Simples de janeiro de 2012

Nessa primeira matéria de 2012, a matéria "Admirável Mundo Novo?" busca como a ficção científica olhou para o futuro e tenta entender se vivemos hoje num mundo como o que autores como George Orwell e H.G. Wells imaginaram.

Mergulhei nos livros e filmes clássicos do gênero - uma missão muito agradável - e conversei com especialistas em ficção científica, astronomia, design e até nanotecnologia médica. No final há uma lista com as previsões que "deram certo" e as que não se tornaram realidade.

Eis a lista!


Livros
- "1984" - George Orwell
- "The Time Machine" - H.G. Wells
- "Fahrenheit 451" - Ray Bradbury
- "Admirável Mundo Novo" - Aldous Huxley
- "Neuromancer" - William Gibson
- "Clockwork Orange" - Anthony Burgess
- "A guerra das salamandras" - Karel Capek

Filmes
- "Blade Runner"
- "Laranja Mecânica"
- "The Time Machine"
- "Wall- E"
- "2001 - Odisseia no espaço"
- "De volta para o futuro II"
- "Inteligência Artificial"


A edição de janeiro da Vida Simples está nas bancas.

2 de jan de 2012

HIstórias com som e fúria


Todas as histórias do mundo já foram contadas. Esgotamos nossa capacidade de imaginação, pode conferir. Já na Bíblia conseguimos juntar muita coisa: religião, violência, sexo, traição, reviravoltas e até ressureição. Daí pra frente,  só enrolação. É muito difícil achar algo novo a ser narrado. É por isso que o cinema está fazendo filmes sobre quadrinhos, sobre seriados de TV. É por isso que o que vende hoje são os livros de autoajuda. Para que contar mais histórias?

Assim é, de fato, como eu ando sentindo o mundo. Um lugar de repetições, de lenga-lenga, de tragédias (na primeira vez) e farsas (na segunda). Até que terminei de ler “O som e a fúria”, de William Faulkner. Veja bem, o romance foi escrito em 1929, mas Faulkner não leva vantagem alguma. Já em sua época não havia mais sobre o que falar. Sem a internet ficava difícil constatar isso, mas era realidade.

Faulkner não reinventou a roda. Nem Quixote. Nem o livro de areia. O enredo de “O som e a fúria” poderia ter sido tecido por qualquer romancista de boteco que gosta de pagar o triplo do preço por uma porção de mandioca seca demais. O que acontece no livro é difícil de descrever, pois depende muito pouco das ações que de fato são narradas. O importante é como os fatos são contados e pensados. Ao invés de criar uma história, um narrador e personagens, o autor escreveu quatro livros que se interligam intimamente, porém são escritos em quatro estilos completamente distintos. Há ecos das mesmas visões em todas as partes, claro. Surpreende, porém, o quanto é fácil se deixar levar por cada uma dessas vozes e partilhar seu ponto de vista. Uma traz agonia, outra, dúvidas, a terceira, uma raiva sem fim, e há também a frieza da quarta voz.

E assim se conta a história de uma família no Sul dos Estados Unidos, despedaçada por segredos, preconceitos e a demência de um dos irmãos. Ele, aliás, é um dos narradores. Quase inconsciente de sua existência, mistura tudo numa só torrente de palavras: o passado, o futuro, pessoas que morreram, que foram embora e sua profunda incompreensão de tudo.

“O som e a fúria” está longe de ser um livro fácil. Como recorre muito à imersão psicológica, muitas vezes não se sabe muito bem o que está sendo dito ou pensado, não se pode distinguir desejo de ação. E é essa a virtude principal do mais famoso livro de William Faulkner. Há uma história sendo contada. Há uma trama. E isso está longe de ser o essencial. Pensemos em “como” e não em “o quê”. A exuberância do que Faulkner escreve está em sua capacidade de tornar algo que é repetitivo, insosso ou, por que não, um clichê, num magistral exercício de perspectiva.

Pode-se contar um milhão de histórias, escrever um milhão de linhas sobre alguém ou algo e não será o suficiente para que todo esse volume de suposta imaginação fique esquecido para sempre. O olhar escolhido é sempre o mais importante no fim. A imortalidade de “O som e a fúria” há que isso é verdade.