26 de dez de 2012

Super8ito #16 - Promessas não cumpridas

O ano-novo se avizinha e com ele, as promessas aos montes. Determinamos novos rumos para nossa vida, esperando que o ano vindouro concretize aquelas aspirações eternas de nossos espíritos. Como as bandas da nossa edição número 16 do Super8ito, sinto informar-lhes, mas não vai rolar. São oito exemplos de como o que importa mesmo, no fim das contas, é fazer e não falar. Ou gravar. Feliz ano-novo.


21 de dez de 2012

Espírito de Coringa


Faz algum tempo, tenho sentido que a música ficou menos interessante, mais sem-graça, mais inofensiva. Sem saber muito bem como explicar isso, nunca ousei escrever um texto a respeito, com medo de virar um daqueles caras que só consegue ver vantagens no passado.

Ontem, topei com uma frase do Charles Thompson (também conhecido como vocalista do Pixies, Frank Black e Black Francis):
Now people pursue rock music and they go, "I have something important to say, and here's what it is, and ooh, I'm singing it from my heart, too". And it's all too serious. And people totally miss out. They totally miss the fun, Jabberwocky, fun-with-language, fun-with-poetry. 

Em português:
Agora as pessoas fazem rock e ficam [dizendo], "Tenho algo importante a dizer, e aqui está, e uuu, estou cantando com meu coração". É tudo muito sério. As pessoas perdem a oportunidade. Elas ficam de fora da diversão, Jabberwocky [poema nonsense de Lewis Carroll], diversão com a linguagem, diversão com a poesia. 
O trecho vem do livro "Doolittle", escrito pelo jornalista Ben Sisario para a fantástica série 33 1/3 (que conta a história de álbuns importantes do rock).



De fato, caro Thompson, tudo é sério demais. Dá para estender isso a outros campos. Essa frase foi dita em 2004, em entrevista ao New York Times, mas continua bastante atual. Estamos perdendo o senso de humor principalmente nas artes. As coisas ficam sérias, graves e viram quase uma extensão do "coração" dos cantores, escritores, autores. Mais importante do que compor uma bela obra é que aquilo seja reflexo perfeito da personalidade do criador.

No mesmo livro, Sisario diz várias vezes que Thompson não dá muitas explicações para suas letras. "Não quer dizer nada, é só uma canção", diz o vocalista dos Pixies.

Pois é. Sempre achei que tudo que tem explicação demais ou que é muito evidente perde um tremendo valor no impacto que pode causar nas pessoas. A arte deveria servir à confusão e não ao ego de quem a produz. O Coringa concordaria.

Música para o Apocalipse


Antes que a piada acabe, darei minha contribuição à cultura do Apocalipse maia com uma belíssima música do injustiçado Sam Roberts. É o fim do mundo que ele nunca tenha vindo tocar no Brasil. A música e o disco em questão se chamam "Love At The End Of The World". Uma mensagem de esperança, portanto. Asteróides, tsunamis e zumbis não acabaram com o amor nesse fim de mundo. Chega.

20 de dez de 2012

Super8ito #15 - Natal Deprê

A época mais deprimente do ano chegou e nós entramos no espírito com a nossa já famosa seleção que só convoca oito. Essa edição do Super8ito é perfeita para quem gosta de afogar as mágoas no Natal e não vê a hora de janeiro chegar. Encosta sua cabecinha no nosso ombra e chora, porque esse ano não vai ter brinquedo (as crianças já estão com medo).



Nova York em chamas


Uma boa parte da história da música pop dos últimos 40 anos tem a ver com Nova York. Rock artístico, rock proletário, punk, minimalismo, hip hop, disco e até a salsa tiveram na capital cultural dos EUA um lugar para crescer e se difundir pelo mundo. A lista de artistas que começaram ou se consagraram por lá é impressionante e serve como atestado da importância de Nova York: Patti Smith, Television, New York Dolls, Bruce Springsteen, Talking Heads, Blondie, Steve Reich, Philip Glass, Laurie Anderson, John Cale, Lou Reed, Grandmaster Flash, Nicky Siano, Wynton Marsalis, Anthony Braxton, Tito Puente, Rubén Blades, Celia Cruz e a lista nunca termina.

E o período entre 1973 e 1977 foi particularmente prolífico. Por isso o jornalista Will Hermes escreveu "Love Goes To Buildings On Fire" (título de uma música da banda de David Byrne), que saiu dia 8 de novembro nos EUA. Hermes não tenta explicar os motivos de tanta vida artística. Sem entrar no gênero do ensaio cultural, ele contextualiza de maneira detalhada o que estava acontecendo naquela época confusa.

Claro, ele fala dos casos de amor, das brigas, dá a data exata de shows - assim como o preço do ingresso e da cerveja -, conta os bastidores da gravação de discos e mapeia as ligações entre bandas, cantores e músicos. Porém, o retrato geral que ele faz da época que NY vivia é tão completo que o livro é indispensável para quem gosta de cultura e não só dos artistas citados no livro.

Hermes relata episódios importantes da política nova-iorquina e americana, resgata notícias sobre crimes e outros eventos relevantes que não estão diretamente ligados aos personagens principais, os músicos. Segundo o retrato que o jornalista pinta, a cidade não era tão distante da nossa São Paulo, violenta, sempre dando a sensação de que falta pouco para entrar em colapso devido à insegurança, a falta de serviços públicos, de empregos e opções de lazer.

De fato, Nova York quase foi à falência em 1975, e o então presidente Gerald Ford quase deixou a cidade na mão, ao recusar ajuda do governo federal. Eventualmente ele voltou atrás, mas ficou famosa a manchete do jornal New York Daily News repercutindo a decisão de Ford: "Ford to NY: Drop dead"(algo como, "Ford diz a NY: se vira").

Outra bola dentro do livro é assumir o envolvimento emocional do autor com seu objeto. Hermes era garoto quando tudo estava acontecendo e foi a vários dos shows, comprou discos, frequentou os bares por onde seus ídolos circulavam. Se o relato perde em objetividade, ganha ao ter a visão de um insider, alguém que morava em Nova York (no Queens, fora da ilha de Manhattan) e teve o privilégio de acompanhar o surgimento da cena.

"Love Goes To Buildings On Fire" agrada aos iniciados em história do rock pelas informações "históricas" da cidade e por juntar todas essas diferentes cenas na mesma narrativa. Para quem não conhece muito bem o assunto, o livro detalha a história de uma cidade que vivia uma tremenda crise social e política, mas, ao mesmo tempo, gerava frutos culturais que marcaram a história da música mundial.

Love Goes To Buildings On Fire
Will Hermes
US$ 9,94 na Amazon (ebook)

E aqui vai uma playlist só com um gostinho da música dessa Nova York em chamas:

19 de dez de 2012

Seis meses no Clube das Armas


Durante o ano em que morei no Alabama, estado do sul dos EUA, vi de perto o apreço que eles têm pelas armas. Uma coisa é ler no jornal a tal da história da Segunda Emenda, que garante aos cidadãos o direito de portar armas para autodefesa, outra é entender que elas fazem da vida das pessoas.

Antes que alguém ache que estou defendendo o uso de armas, já me adianto: sou contra. Talvez houvesse menos tiroteios em escolas e faculdades caso fosse mais dfícil comprar um AR-15, uma das armas preferidas dos traficantes brasileiros.

O que talvez os nossos jornais não entendam é que para uma parcela considerável dos americanos, possuir e portar armas é um direito tão enraizado e disseminado, que qualquer ameaça a ele é vista como uma interferência inaceitável - e aqui entra também a famosa repulsa a governos que se metam demais na vida dos cidadãos, mas isso fica para outro texto.

Na minha pequena cidade, Dothan, muitos pais de família têm uma pistola ou espingarda guardada no armário, para o caso de alguém invadir sua propriedade. Caçar é um hábito comum. Pais levam filhos, amigos se reúnem para atirar em perus e cervos (os famigerados veados). É tão natural quanto o futebol de terça por aqui. A partir do momento em que se pode manusear uma arma, o jovem rapaz alabamense já aprende a atirar, compra peças de roupa camufladas e acompanha os mais velhos em caçadas. Claro, de uma maneira geral.

Não admira que vários de meus ex-colegas de escola tenham passado pelo exército. Alguns foram para o Iraque e Afeganistão. Maridos de ex-colegas de sala ainda estão por lá. Existem uma cultura antiga ligada às armas e à belicosidade, isso desde os tempos mais remotos. Os EUA já passaram por uma sangrenta Guerra Civil, não nos esqueçamos.

Eu nunca atirei, nunca tive interesse em armas, guerras ou brigas, mas quando vi as opções de clubes que a escola oferecia, não tive muita dúvida ao me inscrever no "Gun Club". O clube de espanhol, o de francês e de política eram pouco atraentes naquele contexto. Um mal-elaborado sentimento etnográfico tomou conta de mim e passei a me reunir com meus colegas fanáticos por caça e fuzis para assistir a animais sendo mortos a tiros (em vídeo) e participar de discussões sobre a tal da Segunda Emenda.

O professor responsável pelo clube era ex-militar, lutou na Guerra da Coréia e desfilava pela cidade de uniforme todo Dia do Veterano. Cogitou-se uma viagem de caça. Acabou não acontecendo, infelizmente. Mesmo que eu pudesse atirar (algo proibido pelas regras do intercâmbio, de qualquer jeito), acho que não me arriscaria. Suficiente seria participar como espectador e talvez entender um pouco melhor o porquê de tanto gosto pelas armas.

Obama está comprando uma briga muito grande ao tentar colocar restrições à compra de armas. A questão não é só de gosto. Perder o direito de se proteger, conforme acreditam os defensores da Segunda Emenda, é ir em direção à tirania. Política se mistura à cultura, ao hábito e a um modo de vida que está muito distante de Washington e Nova York. E não são poucos os dispostos a lutar pelo seu direito às armas. De longe, a resposta parece muito óbvia, mas o vespeiro é barulhento quando se chega perto.




14 de dez de 2012

MP3 Grátis: Quatro coletâneas de gravadoras indie


No site da Noisetrade, você consegue baixar quatro compilações com faixas dos artistas de três  gravadoras indie americanas (clique nos nomes para baixar). Esse é um bom jeito de fugir um pouco (bem pouco) do que as revistas mais cool dizem que é bom ou não. Já descobri muita banda boa ovindo esses discos de amostra grátis.

Ato Records (Alabama Shakes)
Anti Records (Calexico, Dr. Dog)
Frenchkiss (Eric Copeland)
Nettwerk (Young Liars)


Música da Sexta - Nada Surf toca New Order


Quando o Nada Surf resolve fazer covers, os caras acertam. Depois de transformar "Enjoy The Silence", do Depeche Mode em uma música menos dançante e mais doce, fizeram o mesmo com "Bizarre Love Triangle", outra "dance song". Ouvindo New Order virar quase um voz e violão nos faz perceber como a banda de Peter Hook era boa.

13 de dez de 2012

Super8ito #14 - Anarco-Punk

Lá vamos nós para uma mais uma edição do Super8ito, nosso podcast temático semanal. Nessa semana que ainda está longe o suficiente do Natal e Ano-Novo (esperem pelos nossos especiais de fim de ano!), fizemos um programa sobre bandas anarco-punk. Como sempre, são oito faixas. E dessa vez, o barulho é forte. Clique no play aí embaixo para ouvir:

Piratas do caramba



Genial a ideia de chamar o Shane MacGowan (The Pogues) para cantar uma música de corsário num álbum produzido por Johnny Depp e Gore Verbinski, ambos presentes na franquia "Piratas do Caribe". Os filmes nunca me pareceram grande coisa - também pudera, sob as luvas de pelica de Mickey Mouse e da Disney -, mas a ideia de ouvir o desdentado MacGowan, Iggy Pop, Tom Waits, Frank Zappa e outros cantando outras canções de velhos lobos do mar me parece muito mais interessante. Isso acontecerá de fato em 19 de fevereiro, data prevista para o lançamento de Son of Rogues Gallery: Pirate Ballads, Sea Songs and Chanteys. 


Shane McGowan: e uma garrafa de rum


Youtube carinhoso

IMAGEM: Wikimedia
Em março do ano que vem o Irã começa a imitar a China e lança o Mehr ("afeição", em farsi), o Youtube local. Como sua colega comunista, a teocracia islâmica vai vigiar pesadamente o serviço para que nenhum sinal de oposição o blasfêmia seja postado. Os chineses têm um clone do Twitter que é muito popular e nunca foge ao controle dos olhos atentos do governo central, o Weibo. A pergunta é: se alguém for pego no pulo postando um vídeo que desagrade ao Ahmadinejad, será tratado com carinho?

6 de dez de 2012

Velha missão cumprida



O Soundgarden é mais um item na lista de bandas que resolveram voltar para transformar as glórias do passado em receitas do presente. Há muito no que se apoiar. Só a trinca “Badmotorfinger“ (1991), “Superunknown” (1994) e “Down On The Upside” (1996) vale pela carreira de uma dúzia de bandas que estão fazendo milhões por aí. Então faz sentido que Chris Cornell e seus amigos venham aos anos 2010 para descontar esse cheque.

E não se pode deixar de admirar o ato de coragem de voltar lançando um disco novo. Deve ser difícil tirar a ferrugem, engolir as brigas do passado e voltar a pensar como banda. Pior, colocar em risco o legado anterior, que, a rigor, é o que as pessoas vão pedir no show. Ninguém vai gritar por nenhuma das faixas novas de “Animal”. Os pulos coreografados da plateia ficarão para “Outshined”, “The Day I Tried To Live” e “Spooman”. Cornell deve saber disso. Assim mesmo insistiu e é preciso admirá-lo por isso.


“Animal” não é um disco ruim. Trata-se de um Soundgarden diluído e pasteurizado, sem dúvida, mas razoavelmente fiel ao seu “legado”, o suficiente para que mantenhamos o respeito pela banda. Tampouco é um disco desagradável. As 13 faixas passam pelo ouvinte de maneira agradável, sem incomodar. Também sem chamar muito a atenção. Resumindo, é um disco sem nada de mais.

Precisa ser todo disco o mais inesquecível de todos? Todas as bandas, artistas, pintores, escultores, poetas, jornalistas e blogueiros precisam revolucionar a todo momento? Claro que não. Essa missão fica para os gênios. E para os que têm momentos geniais e sabem aproveitá-los. O Soundgarden fez um disco que não entrará para nenhum dos anais da música. Mas tudo bem.

Os fãs não ficarão envergonhados. Para quem realmente gosta deles, talvez seja um alívio ouvir Cornell longe de seus covers de Michael Jackson e shows acústicos sem pé nem cabeça. A volta do Soundgarden não será marcada por “Animal”. Daqui a vinte anos, acho difícil que algum fã mencione alguma das faixas novas em suas memórias a respeito do show da banda. Mas tudo bem. A missão do Soundgarden já foi cumprida há XX anos. E eu também vou ficar emocionado quando eles tocarem “Outshined”.

SOUNDGARDEN
King Animal
Universal

Ouça o disco:

5 de dez de 2012

Dave Brubeck (1920 - 2012)

Morreu hoje pela manhã o pianista de jazz Dave Brubeck. Ele tinha 91 anos e ainda estava ativo. Mesmo que não faz ideia da importância dele deve conhecer a frase da música "Take Five", do disco de mesmo nome lançado em 1959. No vídeo, Brubeck toca seu maior hit em 1961.



Nesse outro, tirado do filme "Piano Blues"(dirigido pelo Clint Eastwood para a série "Martin Scorcese Presents The Blues"), Brubeck toca a música "Audrey", observado pelo eterno Dirty Harry. 

$$$ para o filme do Bob Mould


Mito do rock alternativo, punk, sei lá o que americano, Bob Mould está pedindo grana no Kickstarter para terminar o filme que documenta o show "See a Little Light". O ex-Husker Du, ex-Sugar fez uma apresentação no ano passado para comemorar sua excepcional carreira e recebeu excepcionais convidados no palco: Dave Grohl, Britt Daniel (Spoon), No Age e Ryan Adams, entre outros. São só 17 dias até o fim do projeto e ainda falta um bom dinheiro para chegar aos US$ 95 mil pedidos. Eu já fiz a minha doação, claro! Veja abaixo o trailer do futuro filme:



Clique AQUI para doar dinheiro para o Bob Mould.


Super8ito #13 - Fazendo Hora Extra


Está na nuvem mais uma edição do podcast mais temático da rede mundial de computadores, o Super8ito. Resolvemos homenagear o vitalício arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer fazendo uma seleção de oito bandas que já estão fazendo hora extra no mundo da música. Quem imaginaria que os Rolling Stones completariam 40 anos de carreira?  E 50? O Super8ito dessa semana é uma ode à resiliência.


3 de dez de 2012

Especial Cuarteto de Nos (Uruguai)


Excelente esse programa especial da Rádio Elétrica sobre a banda uruguaia Cuarteto de Nos. Maria Laura Vieira selecionou as melhores faixas dos 28 anos de carreira dos roqueiros. Como é de praxe, mais um grupo que passou em branco no Brasil, que não tem o costume de dar muita bola para a música dos nossos vizinhos. Nem me lembro como fiquei sabendo deles. O primeiro disco que ouvi foi o excelente Raro (2006), que recomendo como primeira incursão no universo irônico do Cuarteto.

Clique no link abaixo para ouvir ou baixar o programa:
www.radioeletrica.com/blog/?p=987