19 de jan de 2011

Nada disso, Al Gore


O ex-vice-presidente dos EUA e ativista digital e ambiental (?) Al Gore disse ontem na Campus Party que a "internet é democracia e não pode ser controlada". Lindo. Esse é o discurso mais defendido atualmente, o de que a rede mundial é um território onde as informações devem correr livres e soltas, sem interferência de corporações, governos ou qualquer um. Eu acho que ele está enganado.

Quanto à questão da liberdade, estou com Gore, sem dúvida. Equivocada - de propósito ou não - está a ideia de que a internet por si própria é livre e assim deve ser. Bom, a verdade é que ela pode até ter nascido assim, mas isso acontecia por falta de recursos tecnólogicos, de maneiras eficientes para barrar acessos a conteúdos. Isso mudou, já sabemos bem. Fora a pressão feita por governos pela disponibilização de dados confidenciais.

Outra pergunta importante é: por que a internet deve ser tão livre assim, mais livre até do que o mundo real? Considero desejável que exista de fato a mesma liberdade que o mundo virtual oferece. Não entendo o porquê de sempre se defender piamente a circulação de informação pelas vias tecnológicas e esquecer que talvez a palpabilidade não esteja no mesmo patamar. Dirão alguns: "Mas o nosso mundo está baseado na informação digital hoje". Bem, nosso mundo se baseou em muitas formas de armazenamento de informação. A democracia grega tão (erroneamente) citada como modelo de igualdade política, mal mantinha registros escritos e seu legado sobreviveu firme (mais ou menos).

Do que se trata isso, então? Para mim, de um modelo de sociedade. A transparência não deve se limitar à internet. Não devemos discutir a mudança dos paradigmas de direitos autorais somente para ebooks e mp3. Por que não nos perguntarmos o que está em jogo ao invés de colocar toda a discussão nas plataformas e - no limite - nos equipamentos?

E toda vez que volto ao cerne da questão, volto à pergunta: "Que modelo de sociedade queremos construir?". Esqueçam o iPad, a NET, a Verizon, foquemo-nos no processo todo, nos processos econômicos, sociais, nas manufaturas chinesas. Onde está nossa liberdade?

O modo como ela será construída na internet depende, acredito, em todo o resto. Se alguém pode me acusar de querer desviar a discussão de um processo específico, tenho outra acusação pronta na agulha: estão reificando (fetichizando) a tecnologia para que as pessoas percam justamente a noção de que vivemos processos sociais. Não acreditem que "os gadgets são nossos pastores e nada nos faltará".

3 comentários:

luiz disse...

não dou ouvidos pra um cara que diz (ele) ter inventado na internet!

Anônimo disse...

Ele foi vice presidente dos EUA e não ex-presidente como voce escreveu.

Diogo Rodriguez disse...

opa, corrigido!

ele não é de todo mal, luiz, mas tem um discurso muito vago. só não podemos mais achar que ele é autoridade máxima em termos de internet. melhor se tentarmos aprofundar as discussões.

abs