30 de mar de 2012

Sem conexão

A primeira tela deslizou rápido para dar lugar à segunda, quase igual. Traços do indicador embaçaram os pequenos ícones. Ela se sentou devagar, puxando a mochila para a frente do corpo. Ficou imóvel por dez segundos, procurando sinal com o canto dos olhos. Pôs-se a revirar o bolso maior, buscando algo no fundo. Os ícones brilhavam e se expandiam, minimizados e maximizados. Um botão com ondas se acendeu. Procurou, procurou, procurou, mas o telefone não conseguiu achar rede. Sem conexão.

- Você vai fazer a prova?
- Não

Nada mudaria sua feição e postura. Enterrado na cadeira, ele continuou a coreografia sobre a tela brilhante sem pestanejar. Emergiu do zíper amarelo o embrulho prateado, quadrado. Sanduíche de pão de forma, embrulhado em quatro dobras bem-feitas. Escondido pelos óculos feios e antiquados, os olhos dela jogavam a linha naquele mar frio de um olhar fixo. As duras correntes do vidro engordurado prenderam o mármore negro impaciente do rapaz.

O quadrado de pão diminuía e o ícone se acendia e se apagava. Silêncio. Sem conexão. Pessoas desceram do elevador, uma luz se acendeu no fundo do corredor. Rede três gê, rede wi-fi, nada. Melhor desligar e ligar de novo. Uma mordida suave. Anzol perdido jogado entre as cadeiras. E o mar congelado. Nada. Sanduíche sumia, continuavam serpenteando as redes, as linhas e os olhares sem direção.

Desceu vagarosamente o último pedaço de pão recheado, a folha se tornou bolinha. Uma estranha escuridão se operava ao redor da tela suja e dos olhos de vidro dele. Buraco negro onde que deixava tudo para fora, a mochila de um lado e a mão com alumínio do outro. Levantou-se e tomou uma última coragem:

- Que péssima nutricionista que sou. Aconselho as pessoas a comerem bem e estou aqui, jantando um sanduíche. Está errado.

Abriu-se de novo a porta do elevador, o ruído se sobrepôs ao da voz dela. A mochila foi para as costas e ela resolveu recolher a linha. Continuava a brilhar a tela, insistente: sem conexão. E nada.

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