12 de set de 2012

Fla-Flu em estádio vazio


Estava cruzando a rua Augusta a uns trinta por hora e do rádio pulou uma frase solta: “Esse Fla-Flu eleitoral entre PT e PSDB não faz bem a mais ninguém, só a eles mesmos”. O âncora falava do tom político no pronunciamento da presidenta Dilma a respeito do corte nas tarifas de energia elétrica.

Estranho. Aquela voz distante condenava o embate entre os dois maiores partidos do país, os que de fato têm dividido as preferências em resultados eleitorais. “Fla-Flu” traz a idéia de que as disputas por poder, cargos e votos não são mais do que um jogo bobo. Que no final da “partida”, não importa muito quem ganhou, a não ser para os torcedores de um dos lados.

Pior que isso, o âncora reproduzia a noção de que a política partidária não serve para nada. Esse é um recurso muito comum, especialmente quando não se tem tempo para fazer análises mais profundas. Sempre vêm as mesmas falas: “Os partidos estão descolados da sociedade”, “os políticos só governam em causa própria”, “votar não vale nada”.

Respeito que não se sinta confortável com a política. É mesmo um campo complexo, cheio de nuances, termos técnicos e disputas incompreensíveis. As críticas também são respeitáveis. Quem aguenta, afinal, tantas denúncias e decepções?

Mas a voz no rádio me deixou preocupado, para além do normal. Ela dizia que as disputas entre os partidos são ruins e ponto. Subjaz no comentário daquele moço que haveria uma solução escondida sob todas as camadas de contendas ideológicas ou de poder. E que a culpa por essa solução universal e inerentemente boa nunca aparecer é dos partidos e suas preocupações menores.

Já na Doutor Arnaldo, prestes a ir em direção ao Pacaembu, a conclusão entrou no carro para pegar uma carona: O radialista está criticando um dos pilares da democracia.

Raios de democracia

Na essência, do que se trata a democracia? De debate, deliberação, conversas a respeito dos problemas. As decisões são tomadas depois de ouvir o maior número de opiniões possível. Conjuntamente se escolhe aquilo que é o melhor naquele momento.

A fala do nosso amigo locutor é impaciente com o perde-ganha, fala-fala, decide-muda de ideia da democracia. Se nos aprofundarmos em algumas décadas no passado, veremos que não é o único. À parte de quem gostaria que fôssemos tutelados por alguma “força” maior, temos aqueles que veem na democracia direta a única solução justa.

Porém, já se mostrou que mesmo em Atenas não existia uma gigantesca assembleia onde cada cidadão fazia seu voto a cada decisão que precisava ser tomada. As assembleias que tomavam as decisões da cidade eram sim formadas por cidadãos, mas uma parte deles. A escolha era feita por sorteio. Igualdade, nesse caso, era a de participar do governo. Todos podiam se inscrever. Como era sorteio, a chance era igual. Mas de maneira alguma TODOS os cidadãos votavam em todas as questões o tempo todo. O cientista político francês Bernard Manin mostrou isso em seu livro sobre representação política.

Existem muitas discussões para tentar definir qual é o modelo ideal de democracia. Cada país tem uma solução e um impasse irremediável. Mencionamos os EUA como exemplo máximo de boa execução dos princípios da democracia – falamos da eleição de juízes, das constituições estaduais – mas raramente nos lembramos de que o voto para presidente lá é, a rigor, indireto.

Nada a ver comigo

Uma lista de críticas brasileiras à democracia do Brasil não cabe em texto algum. Nem vou tentar reproduzi-las. Vou me focar só em uma: no malvisto Fla-Flu do nosso amigo do rádio.

Sim, muitas vezes os partidos se descolam de nossas demandas quando assumem o governo. Candidatos nos decepcionam, políticas nos incomodam. Mas digo uma coisa: investigando a história das ideias e da política, a democracia nunca teve pretensão de resolver todos os problemas de maneira perfeita. Regimes totalitários quiseram dar respostas definitivas. Autocracias dizem que são o fim da história política. Mas a democracia só sobrevive com essa constante tensão entre o que está sendo feito e o que se quer que seja feito.



Ela acomoda diferentes visões de mundo. Permite que as opiniões mudem, que costumes sejam ultrapassados e que novas necessidades entrem na pauta. Exemplos existem aos montes. E podemos achar muitos deles a partir de 1988, data de nascimento do nosso Fla-Flu.

Enquanto não entendermos que é esse o funcionamento da democracia, nunca estaremos prontos para participar dela. Sim, porque precisamos entender que se trata mesmo de um Fla-Flu em um certo sentido.

Às vezes ganharemos, outras perderemos e algumas vezes o empate será o resultado. Desde que nenhum dos times seja declarado campeão sem jogar e sem usar meios ilegais de ganhar, sempre há a chance de reverter o resultado no segundo turno.

Concordo, porém, que ainda estamos longe do ideal. Muito há que se fazer para melhorar as instituições, as eleições e os eleitores. Mas ter de melhorar não significa ter de jogar tudo o que existe no lixo. Eximir-se de responsabilidades e fingir que a política só diz respeito aos políticos.



Taxistas tão politizados
Quando viajamos ao exterior, pegamos o metrô admirados, compramos o passe semanal com gosto e ficamos impressionados com a politização dos taxistas, porteiros e garçons. Voltamos para casa, reclamamos de tudo e decretamos que nossa política é um lixo mesmo e que ela não nos diz respeito.

Na Marginal, a fala do locutor mostrou sua lógica perversa. Ao rejeitar o que temos, achamos que nossa responsabilidade diminui. Mas não. Continua a mesma, queiramos saber ou não, saibamos ou não do que se passa. Porque viver em democracia não se trata só de ter direitos, mas de assumir a responsabilidade por vivê-la, com seus defeitos e qualidades.

Quando nos afastamos de tudo estamos dando autorização para que decisões sejam tomadas em nosso nome. Mas não somos menos responsáveis por elas. As mãos de todos estão sujas.

Entendo, porém, a preferência por outras distrações. A vida já é muito dura e sem-graça, por isso sempre encontramos tempo para blogar, twittar, fazer ioga, academia, um curso de história da arte, viajar, tocar violão e assistir a um Fla-Flu. Mas o Fla-Flu que de fato causa mudanças acontecerá sempre num plenário vazio, em arquibancadas sem torcida. O GPS me diz que cheguei ao meu destino. 
 pol podiam se

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