19 de mar de 2010

Invisível e "esquecível"

Paul Auster lançou "Invisible" no ano passado nos EUA e Europa. Ainda não foi feita uma tradução (nem do penúltimo, "Man in the dark"), mas já dá para comprar na Livraria Cultura. Sou fã dele, estou lendo tudo, comprando pouco a pouco. Terminei de ler "Invisible" há uma semana.

A metalinguagem é a marca dele e sempre vai ser, porque também é um de seus trunfos. Ele sabe do que está falando, das dificuldades em escrever, dos processos mentais que envolvem crias histórias, do impactos que elas têm depois que nascem. "Man in the dark" é supremo nisso, em entrelaçar linhas narrativas díspares, mas que dependem de sua ligação para fazerem sentido. Ali, um escritor/professor de literatura (este outro personagem recorrente em Auster) imagina um futuro alternativo para o mundo pós-onze de setembro. Mas essa ficção fala com ele e precisa de sua ajuda para sobreviver, pois ela está um tanto fora de seu alcance. Vale a pena ler.


Em "Invisível", a mesma tentativa é feita, mas dessa vez, como menos sucesso. Primeiro, porque os conflitos que o estudante de literatura e aspirante a poeta Matt Walker enfrenta não são muito interessantes. Segundo, porque a meta-linguagem foi usada mais como formato a ser seguido do que tempero do desenrolar dos acontecimentos. Outro problema, alguns exageros que Auster normalmente não comete. Surpresas exageradas, tragédias insuspeitas demais. Normalmente, a graça dos romances dele reside em saber que mesmo os fatos inesperados estão calcados em pequenas plataformas de realidade, que ora se elevam, ora não. "Invisível" tenta contemplar muitas pequenas questões formais, tenta se resolver como livro, mas esquece de dar consistência à vida ficctícia ali contida. Os saltos são feitos a partir do nada, sem um impulso dramático que lhes dê coerência. Assim, mesmo fatos chocantes ficam vazios, porque eles não estão entrelaçados com a história, estão costurados com linha grossa conforme passam os capítulos.

Esperei pela "emenda perfeita" (geralmente executada por Paul Auster) até o fim, mas ela nunca se mostrou. Pior, o final se dá num absurdo apelativo, que desce a ladeira para dar com a nossa cara num muro de tédio. É triste ver que o autor de "A Trilogia de Nova York" está perdendo a mão. Ou pior, não tem mais nada a nos contar. Bom, pelo menos ele trocou a desgastada foto que normalmente ilustra seus livros.

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