16 de mar de 2010

Deus, frango frito e Walmart

Vivi no Alabama durante um ano. Na cidade que me acolheu, Dothan, a vida começa na igreja, passa por um restaurante fast-food para um lanche rápido e termina em compras supérfluas no Walmart (ou Kmart, qualquer "mart"). Essa é a primeira história da minha iniciação involuntária como cientista social.

Mesmo com a suposta globalização de costumes e da laissez passer de informação, algumas coisas serão sempre essencialmente diferentes, acredito. Desestruturar as culturas locais a ponto de roubar todas as suas particularidades e destruir uma visão de mundo inteiramente será difícil.

Insira a cidade de Dothan, no Alabama, o quanto quiser na rede mundial de computadores, envie convites de Facebook para todos os seus habitantes, exponha-os às culturas mais “exóticas” e distantes (como a bósnia e a japonesa) e o resultado sempre será o mesmo: os dothanianos passarão a marcar seus grupos de estudos bíblicos por eventos no Facebook, postarão vídeos de música gospel e seu ímpeto missionário não ficará menor, porque será mais fácil entrar em contato com os possíveis convertidos.

Para quem é religioso, a própria noção de diversão é distinta, digamos, da nossa. Lembro-me bem de uma sexta-feira à noite em especial, quando provavelmente estaria fazendo uma night on the town com amigos, caso estivesse no Brasil. O cenário era a metrópole flutuante de Dothan: sua população fixa não passa dos 40 mil, mas somando todas as pessoas que por lá transitam (a cidade está no entrocamento de várias estradas que ligam o norte do estado à Florida, ou seja, praia), chega a 190 mil o número deindivíduos circulando em um dia.

Uma cidade desse tamanho é sinônimo de falta de lazer. Estava lá o multiplex com sete salas passando nada além de blockbusters ou chick flicks (comédias românticas com o Ashton Kutcher), havia um interessantíssimo boliche-balada (sem pista de dança, só com luzes estroboscópicas e pinos fosforescentes) e uma loja de café no estilo do Starbucks (chamava-se Dakota's). E só. Pouco se cede ao mundo profano lá e imagino que hoje não seja diferente.

Então faz sentido eu, Adam (meu irmão postiço) e mais três ou quatro amigos pararmos num lugar como a House of Justice naquela sexta-feira quente de maio. Claro, à minha exceção, todos ali eram protestantes praticantes e animados. Para eles aquilo era parte de sua sociabilidade. Prova disso é que encontramos outra meia dúzia de jovens conhecidos da escola, da igreja, do time de futebol. Numa turma maior e mais empolgada, entramos na Casa Maluca de Jesus.

A tal da Justiça do nome da "atração" tinha ali padrões bem definidos: cristã, protestante, branca e sulista. Imagine um misto de trabalho de conclusão de curso da uma faculdade de Artes Cênicas, Tumba do Penadinho e a Casa do Terror do Playcenter. Eis minha House of Justice.


Um jovem ouve rock pesado e canta junto com as letras satânicas e perversas. Essa é a primeira cena. Aprendo que ele está sendo seduzido pelo diabo, e que agora passará a ser agressivo e a bater na mãe, a dirigir bêbado em alta velocidade, a fazer sexo antes do casamento. Ozzy, seu filho da puta. Alguns metros depois, o inferno é apresentado. O ambiente estava propositalmente quente, eu suava. O diabo, naquela representação vermelha com chifres, tenta assustar a fila indiana de vinte jovens cristãos (eu era o vigésimo-primeiro). Não me assustei, fiquei levemente constrangido.

Jesus é o clímax, o alívio divino de uma noite feita para assustar as consciências maisdesavisadas. Quem não deve nada vai sair dali firme e forte, abraçado em sua Bíblia colorida de estudos; na quarta-feira, noite universal dos grupos de jovens cristãos, cantará forte as músicas do Dave Matthews de deus, Darrell Evans. Está chegando o gran finale. O filho de deus se dirige à nós, jovens pecadores, apela para seu ato de altruísmo máximo (Kierkegaard chamaria de “absurdo”, mas rigor filosófico é um luxo do qual Dothan prescinde) e tenta nos fazer chorar por dentro: “Pô, eu morrendo aqui na cruz e vocês ainda querendo pecar? Caralho, molecada, guenta o tranco senão eu não salvo vocês daqueles aquecedores de resistência da sala anterior, não!”.

Saímos todos gratos pelo frescor da noite úmida e insuportável de 30 graus de uma cidade que recebe sem escalas o bafo e os furacões do Golfo do México. Deus e o diabo na terra do amendoim (Dothan se diz a “capital mundial” deste salgadinho). Não há próxima parada, o “esquenta” foi aquele mesmo. Acho que é por isso que o pessoal se amontoava no estacionamento da atração, tentando prolongar aquela noite ao máximo sem recorrer ao pecado. Eu errava entre os carros, sentindo vergonha, pensando em noites na praia tocando violão e tomando vinho barato gelado no gargalo. Uma camisa abotoada até o pescoço interrompe minha troca de olhares imaginária com uma garota morena em volta da fogueira e pergunta: “Irmão, o que você achou do que foi dito aqui?”. De longe, eu vi que esse homem era mais carola do que todos os outros ali e me arrependi por não ter fugido. Como seria possível responder à sua pergunta sem proferir ofensas? “Interessante”, saiu sem muita convicção. “Você está salvo, irmão?”. O reflexo foi dizer “sim, me deixa em paz”, mas hesitei.

Não pude fazer nada enquanto ele tomava embalo nas palavras e tentava me convencer de que eu estava perdido nesse mundo véio sem porteira (ole' world with no gate), que Jesus já havia me salvado, mas que eu precisava dizer “sim”. “Olhe só como é fácil, é só dizer um 'aceito Jesus como meu salvador' e você está livre”. Fez-se um silêncio dolorosamente constrangedor: ele esperava meu “sim”, eu queria que ele morresse ali mesmo. Quando uma garota diz não, você se afasta, diz que é uma pena e vai embora em busca de outra; quando um evangelista ouve um não, ele te dá um livrinho com o resumo dos argumentos já ditos há um minuto e diz para você pensar bem naquilo.

Claro que pensei. E foi: “Não volto nesta merda nunca mais. Prefiro ficar em casa comendo nuggets de peixe com catchup verde do que passar por isso de novo”. Escapei da House of Justice, mas as tentativas de conversão mais assustadoras estavam ainda não haviam se desvelado naquele mundo de deus.

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