5 de ago de 2010

O hospital no concreto

Estava úmido e fazia frio, como nos últimos dias. Olhando ao redor, o pátio aberto parecia um hospital de campanha, as luzes do poste refletidas na lâmina formada no chão. Com as costas no muro, eu tentava entender o que se passava. Olhei para baixo, percebi que estava sem o coração. Na mão direita, um caixa de gelo fechada. Assim fiquei por mais uns trinta segundos quando resolvi abrir a caixa vermelha para espiar o que havia dentro. Um pouco de gelo, um saco plástico com um volume escuro dentro. Ninguém me disse, mas era meu coração. Como tinha ido parar ali? Sabia, sem uma palavra ter sido dita, que eu estava prestes a morrer. Separado do coração, como um boneco. E segurando-o nas mãos, em seu caixão de gelo e plástico.

Pateticamente, comecei a fazer uma massagem, cardíaca no músculo extirpado. Sem saber o que aconteceria e o porquê de terem me arrancado o núcleo do peito. Não foi preciso insistir muito, senti um pulso na pele da mão. Agarrei o coração e vi que batia decidido. E agora? Algum médico tinha que me ajudar, eu poderia viver. Por que eu tinha de morrer sem nada no peito se o coração estava funcionando? Corri pelo concreto procurando alguém, mas só fazia mexer as portas de tecido das tendas. As enfermeiras só olhavam para mim e nada diziam. Perguntei por médicos, cirurgiões, doutores, sem resposta. Ao longe via que o prédio do hospital estava próximo e corri para lá.

Tudo deserto. Luzes acesas, salas abertas, mas os corredores não viam movimento. Precisava reparar aquilo, não podia morrer com um coração batendo nas mãos, mas ninguém queria me ajudar. Cadê os médicos, cardiologistas, cadê os filhos da puta que me fizeram esse rombo no peito? Quanto tempo será que havia? Fiquei desacordado durante muitas horas? Por qual motivo me largaram num muro, segurando o que foi extirpado de mim? Corria, corria, sentia um oco plástico dentro do peito, desespero: cadê os médicos?

E essa noite estranha, esse hospital com cara de tragédia, as camas espalhadas pelo chão, tendas azuis mal-armadas no estacionamento, e esse maldito prédio vazio? Quem me deixou aqui, de onde veio toda essa gente que sumiu? Ele ainda bate, chacoalhando o gelo, esticando o saco plástico. Corro para todos os lados, mudo de direção, não entendo o que acontece. Abro a caixa, tiro meu coração de dentro do plástico e o levanto para alto: alguém pode me ajudar, por favor?

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