11 de jun de 2010

Ronnie Von abre o jogo

Fiz essa entrevista com o Ronnie Von em maio de 2009. Era o começo de um projeto de TCC que iria contar a história da famosa (ou nem tanto) fase psicodélica do príncipe da jovem guarda. O projeto não andou, descartei a ideia e fiz um livro sobre o pós-punk paulistano. Mexendo em meus arquivos, encontrei essa versão editada da conversa. Já tem muito material interessante, mas não é um terço do que ele disse. Se vocês gostarem, transcrevo o resto e posto aqui.

Nesta entrevista ele fala sobre o boicote da Jovem Guarda,  do descobrimento dos Mutantes (e de algumas mágoas em relação a eles), do começo de sua carreira e disse quem ele acha que era a mente brilhante por trás da Tropicália.

“Eu era uma coisa meio indefinida. Tive uma carreira muito irregular”

Como começou sua carreira de cantor?
Meu pai, que era embaixador, trazia todos os discos muito antes de eles chegarem aqui. Por causa disso,  acabei ficando amigo de uns rapazes do Rio que tinham uma banda, os Brazilian Bitles. Você fachava os olhos, era igualzinho aos Beatles. Nós ensaiávamos juntos, mas nada sério, eu não fazia shows. Um dia, no Rio, eles fizeram um show no Beco das Garrafas, uma matinê no bar Little Club. Eu fui com uma namoradinha minha, tinha 21 anos. No meio do show deles, o vocalista Eli Barra me chamou pro palco. Fui para a porta de saída, morrendo de medo. Acabei subindo e cantei a música You’ve got to hide your love away [dos Beatles]. Quando desci do palco, havia um executivo da gravadora Philips, hoje Universal, me esperando. “E aí, vamos gravar um disco?”, ele disse. Respondi “imagine, meu pai me deserda, minhas tias me estrangulam”, eu sou de uma família tradicional do Rio.

Você disse não?
Ele me convenceu, disse que era só uma experiência. Eu ia cantar só duas músicas, uma em inglês e outra em português [para gravar um compacto simples]. Gravei com uma banda de amigos meus, Os Santos.
 
Sua família ficou sabendo?
Essa história é engraçada. Estava voltando para casa de carro, no túnel Rebouças, quando ouvi minha música tocando na rádio Tamoio. Comecei a tremer todo e encostei o carro para escutar. Foi uma emoção indescritível. Cheguei em case e liguei pra todos os meus amigos, todos escutavam a rádio: ninguém tinha ouvido minha música. Minha tia-avó tinha. Teve reunião de família. “Você vai jogar o nome da família na lama”, “onde foi que nós erramos”, aquelas histórias. Minha mãe me deu força, meu pai ficou bravo. Minhas tias viviam no século dezenove, estavam todas na corte, uma coisa complicada. Minha mãe disse: “você não tem nada a provar a ninguém, nem a mim, nem a seu pai. Se você acha que só vai se realizar profissionalmente nessa provisão, que seja assim. É uma atividade profissional como outra qualquer”. Numa coisa ela concordava com o resto da família: que aquele não era um ambiente para cavalheiros [risos]. Fui descobrir muito tempo depois que ela tinha razão

O que aconteceu então?
Não havia mais espaço para mim no Rio, nem com os meus amigos, nem com a minha família e eu vim para São Paulo sozinho para morar na Praça Júlio de Mesquita, que era um lugar que eu podia pagar. Não era um ambiente muito bom, estava cheio de moças de vida fácil, um lugar não apropriado para um cavalheiro.

Era boa sua relação com a Jovem Guarda?
Eu nunca fiz parte da Jovem Guarda. Na época em que eu surgi houve a coincidência cronológica. Mas eu fui brutalmente rejeitado pelo Roberto. Os mal-estares foram resolvidos pela minha mulher e pela Nice [primeira esposa de Roberto Carlos] muitos anos depois. Eu gostava do Roberto e queria fazer o programa, ele era referência da música jovem. Eu era proibido de entrar no palco. Isso é tudo segredo de estado, ninguém sabe.


Era explícito que você não podia participar do programa?
Eu fui contratado pela TV Record para ser anulado [para apresentar o programa O Pequeno Mundo de Ronnie Von, em 1966]. Isso chegou a ser bastante divulgado recentemente.

E os artistas que ia ao seu programa não podiam participar do Jovem Guarda, isso é verdade?
É verdade. Não era algo registrado em cartório, mas você quando ia ao programa, sabia que jamais pisaria no Jovem Guarda porque o Roberto não queria. Ele estava na Record antes de mim, tinha uma voz muito mais ativa.

Como você descobriu isso?
Primeiro com o pessoal do que eu chamo de “rádio-corredor”. Depois, músicos me contaram que quando Roberto gravou Querem acabar comigo havia uma fotografia minha numa estante.

"Eu gostava do Roberto e queria fazer o programa, ele era referência da música jovem. Eu era proibido de entrar no palco. Isso é tudo segredo de estado, ninguém sabe.”

O que fazer, então? Os principais artistas da época não podiam ir ao seu programa.
Bom, aí comecei a me aproximar do pessoal do movimento [tropicalista]. Eu tinha um programa e não tinha quem aparecesse nele. Caetano [Veloso] ficou meu amigo na Record, [Gilberto] Gil ficou meu amigo na Record e lancei Os Mutantes nessa época. A coisa começou a ficar complicada na Record, não havia espaço para mim, resolvi sair em 1969. Minha filha havia nascido, achei melhor.

Como você ficou amigo da banda Os Mutantes?
A Rita [Lee, vocalista] era minha amiga, ela também era beatlemaníaca. Quando meu pai me trouxe o Revolver, dos Beatles, chamei ela para ouvir o disco em casa. Ela me contou que estava montando uma banda com mais dois meninos. Eu estava lendo um livro de ficção científica que se chamava O império dos mutantes e sugeri o nome. Eles adoraram.
 
E eles sempre participavam do seu programa...
Fui eu quem os lançou. No meu programa eu não tinha cast, não tinha quem participasse. Nós combinamos de fazer o programa. Na estréia do programa fizemos a “Marcha Turca” do Mozart. A idéia era misturar o clássico com o popular, classic with a beat. Uma outra vez não tinha ninguém para participar do programa e nós tocamos o Revolver inteiro no programa. Cantamos Eleanor Rigby com uma orquestra. Aí ficou sério. Fomos aplaudidos de pé, uma loucura.

Por que eles pararam de aparecer no seu programa?
Eles conheceram o Gil, o Caetano, começaram a se envolver com eles e com o empresário deles.

“Não havia mais espaço para mim no Rio, nem com os meus amigos, nem com a minha família e eu vim para São Paulo sozinho”

E você, não se envolveu também?
Eu me engajei no tropicalismo com o disco No. 3 [gravado com Os Mutantes e com a participação de Caetano Veloso]. Os empresários se desentenderam, o meu e os deles. Fui convencido a sair. Saí. Tive que abrir mão da única coisa na qual acreditava musicalmente. Aí resolvi fazer o que eu queria de fato e gravei aquilo [o disco A Máquina Voadora, de 1968, extremamente experimental].A partir daí, comecei a ouvir muito o departamento comercial da gravadora. Depois disso, só gravei porcaria. Me arrependo de não ter continuado gravando coisas nesse estilo da Tropicália.

Você não pertencia nem à Jovem Guarda nem à Tropicália...
Eu era uma coisa meio indefinida. Tive uma carreira muito irregular. Eu era e não era...

Mas a parceria com Os Mutantes não continuou?
Eles se envolveram com o pessoal da Tropicália e “tchau e benção, Ronnie”, nunca mais apareceram no meu programa, seguiram aquele caminho. Tudo bem, tudo certo. Convidei a Rita dezesseis vezes para participar do meu programa e ela nunca foi [Todo Seu, na TV Gazeta]. O Serginho [Sérgio Dias] foi.

Quem era a grande mente da Tropicália?
Todo mundo sempre fala do Caetano – que é maravilhoso, genial mesmo – mas o grande mentor da coisa foi o Gil e ninguém menciona isso. Eu não achava isso justo.

Veja mais sobre Ronnie Von, Tropicália e jovem guarda no sou daltônico, não idiota:
- "O príncipe herdeiro" - Entrevista com Ronnie Von e seu filho cantor, Leo Von
- Perfil do ex-Mutante Arnaldo Baptista
- Resenha sobre a autobiografia de Erasmo Carlos

4 comentários:

Anônimo disse...

Quero mais! Posta, vai...

Diogo Rodriguez disse...

opa, que bom! posto o resto, então. vou transcrever...

Marcio Souto disse...

Oi Diogo, faço a assessoria de imprensa do Ronnie e preciso dessa foto dele com o Roberto em alta definição, vc teria? Meu nome é Marcio e meu email fgassessoria@uol.com.br
obrigado
abraço

Vivian Nakamura disse...

Olá Diogo, estou fazendo meu TCC sobre a Jovem Guarda! Poderia transcrever toda a entrevista que fez com ele? Pretendemos entrevistá-lo também.
Obrigada
Vivian