19/10/2011

Fórmula Tom



Em geral, quando leio algum crítico ou repórter musical usar a palavra “fórmula”, é para fazer uma crítica negativa. Por exemplo, as bandas ou artistas tem uma “fórmula”, que usam exaustivamente porque são (diz o subtexto) pouco criativos. É quase uma linha de produção musical, que entrega produtos vendáveis e de pouca qualidade.

Mas quem entende o mínimo sobre música sabe que a fórmula é essencial para todos os artistas. Dos mais radicais, como John Cage, aos mais “conformados”, como o AC/DC. A verdade é que fórmulas podem ser boas. Exemplo disso é o novo disco de Tom Waits, “Bad As Me”.
O cantor/pianista/ator americano é, sem dúvida, um artista original. Mistura jazz, blues e rockabilly a climas obscuros e decadentes, como se Louis Armstrong fosse gótico. Ele bebe em fontes musicais que sobrevivem de fórmulas: o blues, com seu padrão consagrado de repetição, o jazz, embora mais complexo, com seus “standards”, e o rock, um celeiro de “licks” e “riffs”.

“Bad As Me” tem a mesma lógica do aclamado “Swordfishtrombones”, outro álbum consagrado de Tom Waits. A base melódica do jazz e do blues está lá, mas sua voz rasgada e cênica é acolhida por arranjos que privilegia não a criação de “camadas” sonoras, mas de ambientes simples e pontuados por instrumentos percussivos (às vezes agressivos, como na faixa de abertura) e repetitivos (“Face to the highway”).

São álbuns parecidos, tanto na sonoridade quanto na dinâmica. Prestam homenagem às tradições admiradas por Waits, mas não deixam o ouvinte se enganar quanto a quem está cantando. É a fórmula, tão atacada nos cadernos culturais pelo mundo. A verdade é que criar algo do zero, sem precedentes, é utopia.

Alguns artistas entendem tão bem (ou tão mal) sua própria fórmula que nunca mais conseguem escapar dela. O AC/DC, por exemplo, que é uma ótima banda, mas lança o mesmo disco faz 20 anos. A excepcionalidade está em quem consegue misturar repetição com mudança. Posso citar o Caetano como exemplo? Bom, ele é.

Todos os gênios entenderam bem quais eram as fórmulas que regiam seu campo de atuação (música, ciências naturais, ciências sociais, filosofia) e aproveitaram o conhecimento acumulado para criar algo que surpreendeu as pessoas. Não existem gênios que criam sozinhos. E também não podemos desprezar o serviço que os não gênios prestam, que é o de deixar claro quais são os padrões vigentes. 

Não tenhamos medo da fórmula. Ela não é necessariamente um mal. Claro, ela pode ser apenas o reforço do que se considera “certo”, “bom”, “belo”. Mas ela só funciona assim para quem já está conformado de antemão. Por outro lado, ela pode servir de guia para a mudança. 

Ouça o disco novo de Tom Waits, "Bad As Me": http://badasme.com/ 

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