Topei hoje com esse vídeo (há outros) do Stephen Malkmus, da banda Pavement, tocando algumas músicas sozinho e na rua. Isso aconteceu na Alemanha, onde o americano Malkmus mora agora, no começo de julho, a julgar pela data de upload no Youtube. Apesar de ele desafinar um pouco, errar algumas vezes o ritmo na guitarra, vale cada minuto. Mais uma prova de que talento não necessariamente é igual a técnica. Deu saudades de um dos melhores shoes que eu já vi, justamente o do Pavement em São Paulo (2010).
A moda de tocar na rua não é nova entre os astros da música indie. Para divulgar seu disco "Bluefinger", Black Francis (Pixies) fez uma série de shows que ele chamou de "pré-bis" ("precore"). Algumas horas antes dos shows de sua turnê ele aparecia em algum ponto da cidade em questão e fazia um pequeno show, só com o violão. O Jack White fez isso em 2011, tocando num estacionamento durante o festival SxW, em Austin (Texas). Aqui estão:
Black Francis toca no túmulo do artista holandês Herman Brood, o homenageado de sua canção "Angels Come to Confort You":
Ouça ali embaixo o show que os pós-roqueiros do Sigur Rós (Islândia) fizeram no dia 31 de julho, em Nova York. São 14 canções com lindas guitarras, ecos e pouca cantoria, executadas no bairro do Brooklyn. Extrema gentileza de todos os envolvidos, você pode baixar as quase 2 horas da apresentação em mp3.
O rock está na moda, sem dúvida. Nunca ouvi tantas guitarras na vida. Os comerciais tocam Black Keys, David Bowie e Queen; eventos de música com múltiplas bandas vendem dezenas de milhares de ingressos em poucas horas. Editoriais de moda de revistas adolescentes ensinam a combinar uma camiseta baby look do Nirvana com um sapato de salto alto do Louboutin.
E como tudo que entra no “esquemão” do mercado de consumo, o rock acabou padronizado. Não choca mais. De trilha sonora da revolta, da inconformidade (“Am I a creep? Am I weirdo?”), passou a ser som de fundo, enquanto jovens descolados com óculos nerds tomam suas cervejas de garrafa verde e postam fotos retrô em redes sociais. Como o mercado precisa de novidades o tempo todo, os dias do rock estão contados. Fiquem espertos, pois o dubstep é o próximo alvo.
Será que a música, o chamado “rock”, perdeu sua capacidade de causar impacto? Virou item de prateleira? Sexta-feira passada provou que não. Depois de mais de dez anos, os alemães do Atari Teenage Riot voltaram ao Brasil. E provaram, no show que fizeram no Cine Joia, que nem tudo pode ser colocado á venda. Comecemos pelo som do ATR, impossível de ser comercializado de maneira dita normal. A mistura de punk, techno, drum’n’bass, jungle, industrial e inferno auditivo não toca em rádios normais. Não serve de trilha sonora para filmes normais. É um som muito agressivo. E politizado (anarquista, anti-fascista) demais para ser digerido como se fosse mais um biscoito amanteigado na doceria da cultura pop.
Trecho da primeira passagem do ATR em São, em 1998:
Foi isso o que se ouviu na sexta. O ATR não alivia ao vivo. O que parecia barulhento e agressivo nos discos, é dez vezes mais ao vivo. Se as canções (será que se pode dizer isso?) eram pesadas há mais de dez anos, parece que o grupo comandado por Alec Empire se esforçou por deixá-las ainda mais inaudíveis em 2012. Tive inclusive a impressão de que muitas pessoas foram embora depois que o show começou, mas não posso provar. Mas, caso seja verdade, atribuo isso á violência musical. Musical, é claro, já que foi um show muito pacífico, apesar das constantes invasões do público ao palco (sempre respeitosas: no máximo, as pessoas queriam dar um abraço nos integrantes do ATR e pular de volta no lago de gente).
O pessoal invade o palco do ATR pela primeira vez na sexta
Muito se fala sobre as coisas “hipster” do mundo. Esse grupo seria uma espécie de vanguarda, que dita o que será a tendência antes de todos. Mas esse pessoal nada mais é do que um mercado, como outro qualquer, que consome certos bens, desde que devidamente chancelados por alguém (por alguém mais hipster do que eles mesmos) e preparados para o consumo. Por isso, a impressão que se tem é de que sempre existe uma nova banda a ser “desbravada” antes de todo mundo. Mas, via de regra, essas bandas são apenas um produto, um empilhado de referências corretas, “cool”. Ou seja, adequadas para um certo tipo de costume, apesar de muitas vezes disfarçadas sob a etiqueta do “exclusivo”, “customizado” e etc.
Talvez por isso o ATR não tenha sido escalado para um grande festival com filial no Brasil. Talvez por isso tenham vindo para cá apenas duas vezes. E, com certeza, é por isso que o Cine Joia não tenha ficado lotado para o show de um dos grupos musicais mais importantes dos últimos anos (e de todos os tempos, ouso dizer). Com diria Vicente Matheus, o som do Atari Teenage Riot é invendável e “imprestável”. Para ser vendido como parte do mercado hipster não serve mesmo.
Ouça o novo disco do ATR, "Is This Hyperreal?" (2011) na íntegra:
A cabeça prateada de Matthew Caws carrega bem mais do que seus cabelos brancos. Com quase vinte anos de carreira, o Nada Surf que visitava o Brasil pela segunda vez era ainda melhor que o da primeira, em 2004. Mais discos, canções, integrantes na banda (um guitarrista e um tecladista foram incorporados), mais fios alvos e, especialmente, mais força no palco.
Cada vez mais longe do único hit verdadeiro, "Popular", que estourou nos EUA no começo dos anos 90, o Nada Surf está conquistando seu lugar no time de bandas extremamente competentes, quase indispensáveis de se ver ao vivo. Acostumados às limitações devido a uma carreira toda tocando em clubes pequenos e festivais do segundo escalão, driblaram bem os problemas de som e o falatório incessante no Cine Jóia.
Calejados, os nova-iorquinos mesclaram bem os antigos sucessos com os temas mais adultos do novo disco, "The Stars are Indifferent to Astronomy". Foram cinco canções do álbum. Todas funcionaram muito bem, apesar de serem visivelmente desconhecidas para o público.
"When I Was Young", do novo disco do Nada Surf
Foram especialmente cativantes no falso bis, quando puseram o público para dançar ao som da lenta "Inside of Love" e na última música do show, "Blankest Year", uma apoteose com palavrões em inglês gritados pelos presentes. Um domínio da situação que é típico de quem já viu de tudo e passou por otras tantas.
Os problemas técnicos já mencionados não conseguiram esconder a bela voz aguda de Caws, que não falhou nenhuma vez. Em 2004 foi diferente. Com um penteado à la Luke Skywalker, o vocalista gastou suas fichas no meio do show e segurou o resto das canções com a ajuda dos backing vocals e de sua guitarra. Agora, com o apoio do teclado e de uma guitarra solo, não precisa mais gritar e consegue conduzir as melodias doces do Nada Surf sem grandes problemas.
A idade faz bem ao Nada Surf, uma banda que envelhece com rara dignidade no rock. Irônico é pensar que tudo começou com um sucesso adolescente, a tal da "Popular" de outra década. Salvem a cabeça prateada de Matthew Caws.
Topei com esse vídeo da minha atual banda favorita (Tune Yards) tocando em Nova York ontem, perto do Rio Hudson. Merril Garbuls é foda mesmo, caramba. A música é "Killa", a última do show. Love you, Merril.
Hoje tem a saideira do U2 no Brasil. Estive lá no sábado, cobrindo pela Folha e vou dar alguns detalhes do que vi.
Show
Muito bom, equilibrado, levanta o estádio na hora certa e baixa a poeira quando é necessário. Deve ser muito difícil ser uma banda de arena.
Visual
Lindo. A tecnologia não atrapalha a música e fica sempre um passo atrás dela nessa turnê do U2. Eu vi muitas referências aos filmes "ET" e "Contatos Imediatos de Terceiro Grau", mas pode ser coisa da minha cabeça.
Muse
Usam todo o som da estrutura,. Bem diferente de outras banda de abertura, que se veem limitadas a metade (quando tanto) do volume. Mas continuam bem chatos, apesar da potência e dos decibéis.
Lojinha*
Estranha. No sábado, além de esfaquear os fãs e oferecer camisetas feias, cobrava a mais quando se pagava com cartão. Em espécie, sai por R$ 70. No cartão, R$ 73. "Ordens do chefe", disse a vendedora. No domingo*, conforme informa a colega de profissão Jéssica Grant: "No domingo as camisetas já tinham abaixado pra 60 reais e ninguém cobrava a mais".
Banheiros
Limpos, não tão cheios.
Táxis*
Resolveram extorquir a galera. Tinha gente pagando R$ 180 para ir até Santo Amaro. Rádio-táxi também é impossível. Melhor tentar pegar ônibus na Franciso Morato e ir para a Paulista (ou Pinheiros). Mais uma vez, Jessica Grant complementa a dica: "E antes da Francisco Morato tem vários Praça Ramos saindo, é o que mais vale a pena do que andar até lá".
Comida
Preços absurdos de sempre. Vale mais a pena bater um lanche mais tarde, depois do show. A cerveja estava no preço padrão de megaeeventos: R$ 6
Orientadores
Sabe essas pessoas que ficam com camisetas coloridas te dando informações sobre os portões de entrada? Ganham R$ 50 por dia de trabalho. Conversei com um grupo de dez no sábado. Não ganham condução. Almoçam e têm água à disposição em uma jornada de pelo menos 12 horas.
Para provar a capacidade de concisão, característica-símbolo do punk em seus primórdios, posto aqui um show do Ramones. São 26 músicas em 54 minutos, um colosso de rapidez. O cálculo mostra 2,07 minutos para cada faixa. Essa “prática” vem de tempos mais antigos e não menos concisos. Buddy Holly é um exemplo de artista que raramemnte saía da casa dos dois minutos. Dos anos 80 para cá, pode-se citar os Pixies (fãs confessos de Hüsker Dü, punks americanos, além de Holly) e o Times New Viking. O punk não morreu.
Esta indicação de show é inusitada. Neste blog se fala muito de rock, mas a dica é de um show de música brasileira. Samba. Noel Rosa. E quem vai cantar não é nenhuma flor da Vila Madalena ou da Lapa, mas a drag queen Renata Perón. Ela já participou do Qual é o seu talento, n SBT e canta na noite há 15 anos. Com uma banda de primeira, Perón está lançando disco dedicado inteiramente ao cantor carioca. Vai ser no Teatro Sérgio Cardoso no dia 6/11 (segunda), e é de graça.
Noel Rosa canta "Com que roupa"
Renata Perón canta Noel Rosa
Quando: 6/11 (segunda) às 22h
Onde: Teatro Sérgio Cardoso - R. Rui Barbosa, 153, Bixiga - São Paulo
Quanto: gratuito
Site: http://renataperon2.blogspot.com/
Sou jornalista e trabalho em várias frentes: música, tecnologia, comportamento e sociedade. Escrevo para jornal, revista e internet. Faço o podcast semanal Super8ito e arrisco uns poemas. Meus textos saem na Vida Simples, na Mundo Estranho e no Estadão.