Elizabeth Cotten talvez tenha uma das histórias mais espetaculares da música. Trabalhava em Washington como empregada na casa da família Seeger, já bem adulta, quando foi flagrada tocando um violão pela patroa. Pediu desculpas, mas não era preciso: Ruth Seeger era cantora e seu marido, Charles era um etnomusicologista que estudava justamente música popular americana. Impressionados com a habilidade de "Libba", começaram a levá-la para tocar em pequenas festas de amigos pela cidade. Imagine que ela fez um show particular para John Kennedy.
Curiosidades à parte, a música de Cotten é a real surpresa para quem não conhece. Ela fazia um blues rural, tendendo para o country às vezes. Uma música dolorida sobre dores, falta de dinheiro e caronas em trens. O museu Smithsonian relançou as gravações de Elizabeth Cotten no disco "Freight Train and Other North Carolina Folk Songs and Tunes". No site do museu, aliás, você lê uma breve e completa biografia da cantora.
Aqui, você ouve uma das minhas canções favoritas de Elizabeth Cotten, "Shake Sugaree". Quem canta é sua neta de 12 anos.
Saiu mais uma edição do Super8ito. Depois da homenagem à Isadora Faber na edição passada, agora selecionamos oito músicas que misturam melodias, acordes e política. Em comum, os artistas dessa semana têm a vontade de fazer uma denúncia, um comentário ou um desabafo sobre a política. E não necessariamente são artistas "engajados". Então, aproveite que a política está no ar com as eleições municipais no Brasil e as presidenciais nos EUA e deixe-se levar pela batida da mudança!
Super8ito - Edição 03 - Quando os músicos resolver dar pitaco na política
1. Plebe Rude - Até Quando Vamos Esperar?
2. Lou Reed – Good Eveing Mr. Waldheim
3. Dr. John and The Lower 911 - Time for a Change (com Eric Clapton)
4. Nina Simone - Mississippi Goddamn
5. Caetano e Gil – Haiti
6. Dixie Chicks - Not Ready to Make Nice
7. Tom Robinson - Glad to be gay
8. Public Enemy - Fight the power
Dr. John protagonizou uma das cenas mais melancólicas que já presenciei. Era 2005, e eu estava no Rio para vê-lo no (falecido) TIM Festival. A Marina da Glória estava lotada de gente; havia mais gente com pulseiras VIPs do que público "normal", típico do Rio. Quando cheguei ao palco em que o pianista de New Orleans tocaria, fiquei surpreso com as muitas pessoas que acompanhavam o show de abertura, de Dona Ivone Lara. Vi um famoso ou outro com o canto dos olhos e sentei, esperando que Mac Rabennack (o nome verdadeiro de Dr. John) entrasse e se sentasse ao piano.
Cada minuto a menos na contagem para o início do show de Dr. John, significava uma cadeira vazia a mais. Foi aflitivo. Queria impedir as pessoas de se levantarem e irem embora. Justo naquela hora, poxa? "Agora que vai começar?". A ansiedade surtiu pouco efeito. E por que diabos as pessoas se evadiam quando uma lenda da música estava prestes a entrar em cena? Fiquei intimamente envergonhado quando Dr. John se postou frente a frente com seu crânio, companheiro antigo de piano, e começou o show. Senti vergonha por todos nós, que estávamos ali antes. Por todos que tinham acesso aos outros palcos da Marina (eu não tinha). A todos que puderam ver um dos maiores músicos de blues de todos os tempos, mas saíram correndo antes que ele batesse a primeira tecla do piano.
Me senti ainda pior quando ele, vendo a situação, pediu a todos os 50 presentes que se levantassem das mesas e se aproximassem do palco logo de uma vez. E vimos, em pé, com um tremendo de um vazio às costas, com uma tremenda de uma banda à frente, "o" Dr. John. O homem que era amigo de Stevie Ray Vaughan, que misturou o blues com o jazz, com a música do Mardi Gras de New Orleans, que gravou um dos maiores discos da história ("In The Right Place"), tocando para um público menor que o do Café Piu-Piu. Foi um privilégio embaraçoso. Uma dádiva meio suja, meio errada.
Dava para apoiar os braços no palco enquanto ele tocava uma das minhas canções favoritas de todos os tempos, "Right Place Wrong Time". Um suingue que de tão bom, tão raro, é um fenômeno da natureza, incontrolável e impossível de explicar. Tem que ver de perto.
Tudo isso para falar do tal disco velho, "In The Right Place", de 1973, que é referência para todo tipo de músico. Que inspirou o último disco do próprio Dr. John ("Locked Down", de 2012), produzido pelo fã Dan Auerbach (Black Keys). Um disco pouco citado nas compilações de melhores de todos os tempos, do século ou coisa que o valha, mas que merecia mais atenção.
Eu vi o Dr. John de perto, e ele tocou uma música desse disco na minha frente. Até hoje não acredito nisso. Até hoje não acredito que todas aquelas pessoas e suas pulseirinhas prateadas preferiram ouvir Elvis Costello cantar "She" a ficar pertinho do desafinado Dr. John. "She" deixou Dr. John cantando quase sozinho.
Veja Dr. John no filme "Piano Blues", de Clint Eastwood:
Para uma propaganda de cerveja francesa, Lemmy Kilmister e o Motorhead desaceleraram e limparam a rápida e suja Ace of Spades. Virou um blues com jeito de clássico. Até uma gaita acabou entrando. Banda boa é boa até debaixo d'água:
A versão original (e inteira) da música é assim:
** No site da cerveja dá para baixar um mp3 da "Ace of Spades" lenta inteira. Valeu pela dica, Carlos Lemos!
Dr. John, 69, é um dos maiores pianistas de blues da história. Já tocou (para um auditório vazio) no Brasil, participou do documentário "Piano Blues", de Clint Eastwood e tem um disco de funk/soul que é desconhecido e essencial - "Right place, wrong time".
O velho cidadão de New Orleans não é só um pianista técnico, mas também sabe tocar cada nota e cada acorde na hora e intensidade certas. Ele consegue fazer um suingue como ninguém e é excelente nas canções mais tristes, os "blues" propriamente ditos.
Eu sou fã dele desde que o descobri. E isso aconteceu ouvindo um dos maiores discos de todos os tempos em qualquer estilo: "Dr. John's Gumbo". No álbum, de 1969, Dr. John mistura a música mais tradicional de New Orleans com soul e funk, já apontando o caminho que ele seguiria nos anos 70, quando experimentou bastante com timbres e batidas esquisitas.
A partir dos anos 90, Mac Rabbenack, seu nome real, resolveu buscar as raízes mais antigas do piano e começou uma série de discos dedicados à tradição da cidade mais divertida dos EUA. Fez homenagens aos spirituals, às nações do Mardi Gras e falou sobre a tragédia do Katrina no álbum "The city that care forgot".
Em junho de 2010 lançou "Tribal", mais um disco de volta ao passado. Por causa desse lançamento, foi chamado aos estúdios da rádio Jazz 24 para uma performance de voz e piano. Apesar de não ser exatamente famoso, Dr. John é reconhecido por quem entende de blues como um dos músicos essenciais do gênero, alguém que não só repete os velhos standards e cria novas possibilidades dentro de um tipo de música aparentemente limitado.
Para não dizer que é humor negro. Vi no canal de humor do site da BBC. Genial e cruel, tanto com os passarinhos, quanto com o amigo que tem dor-de-cotovelo.
Nesta segunda pós-feriado, com a ressaca presente e as memórias de descanso frescas demais na cabeça, escolhi uma faixa do nativo de New Orleans Earl King. "The Things I Used To Do" tem uma versão do Stevie Ray Vaughan (muito boa, por sinal), mas gosto mais da original. Aproveitem bem o blues da segunda-feira:
Dessa vez investi nos pianistas/tecladistas. Um é um piano hero (para mim), outro que venho descobrindo recentemente.
Dr. John - Anutha Zone
Ele é um dos maiores músicos da história do blues. Começou em New Orleans nos anos 70, cantando em creole e fazendo zydeeko com letras sujas. Incorporou o funk e gravou um dos melhores discos de todos os tempos (Right Place, Wrong Time). Dos anos 80 para cá ficou menos relevante, mas conseguiu emplacar uma sequência de álbuns muito bons nos anos 2000. Não é o caso de Anutha Zone, de 1998. Apesar de não ser de todo ruim, faltou feel, um pecado em termos de blues. A produção é bem sem-graça também. Diferente do Dr. John que eu vi no Tim Festival de 2005, destruindo tudo com uma puta banda.
Há algum tempo atrás, o Stevie Wonder era para mim só um cantor coxinha que tinha feito sucesso nos anos 80. Aí eu descobri "Superstition" e percebi que um dos meus guitar heroes, Stevie Ray Vaughan, já tinha feito um cover dessa música. O disco todo é bom. Aquele timbre de teclado que rasga na faixa mais famosa de Talking Book está em todas as faixas, não tão animadas, mas muito boas também. Esse é um clássico.
Sou jornalista e trabalho em várias frentes: música, tecnologia, comportamento e sociedade. Escrevo para jornal, revista e internet. Faço o podcast semanal Super8ito e arrisco uns poemas. Meus textos saem na Vida Simples, na Mundo Estranho e no Estadão.