15 de nov de 2011

Escolha seu preconceito


Devemos lutar contra os preconceitos, sem dúvida. Ninguém pode ser constrangido porque vive de maneira distinta do resto da população. Hoje, a luta principal é pelo respeito à liberdade de expressão dos homossexuais, os transgêneros e todo tipo de orientação sexual.

Mas precisamos tomar cuidado. Ser a favor de uma minoria, de uma questão, não nos dá a liberdade de virar perseguidores de outro grupo. Isso tem acontecido. E o pior, essa atitude tem origem no mesmo tipo de raciocínio limítrofe que leva à agressão de pessoas no meio da rua.
Sejamos mais claros: só porque algumas correntes de cristianismo são contra os homossexuais, não quer dizer que todos o sejam. Um raciocínio primário, você pode pensar, mas é necessário dizer isso.

Na semana passada, circulou uma boa matéria da TV Folha mostrando o "culto das princesas", um grupo de mulheres evangélicas liderado por Sarah Sheeva, filha de Baby do Brasil. Com viés obviamente conservador, a ex-SNZ incentiva as mulheres a darem valor a seus corpos sem exposição desnecessária. Tanto na matéria escrita, quanto no vídeo, não há momento algum em que as mulheres entrevistadas, Sarah Sheeva entre elas, façam comentários preconceituosos dirigidos a grupo algum. Para julgar melhor, veja com seus próprios olhos.

Então, eu me pergunto, porque pares meus compartilharam esse vídeo nas redes sociais com comentários maldosos? "Ridículo", "Palhaçada", "Surreal", foram alguns dos termos. Esses são os mesmos termos que são usados para falar sobre alguma matéria que fale sobre gays. Se você duvida, vá à página da Revista Trip no Facebook. Recentemente, a revista dedicou um número à diversidade sexual. E recebeu comentários muito preconceituosos.

Será que nossas elites intelectuais não estão desenvolvendo um preconceito contra os evangélicos? Será que não estamos confundindo as pessoas desse grupo que são intolerantes com o resto e colocando todos no mesmo balaio e rotulando-os como "atrasados", "conservadores"?

Tenho medo do preconceito. Não importa de qual lado ele venha.

3 comentários:

Dária disse...

Pelo jeito que você falou, acredita que no culto não há expressão de preconceito a grupo nenhum... mas será?

"Estou há dez anos sem sexo. Uns nove sem dar beijo na boca. Sou radical", relata Sarah. "Era ninfomaníaca, não ficava sem homem. Minha alma foi curada por Jesus."

A vestimenta é um capítulo à parte. "Nesse nosso clube, vocês vão aprender como deixar de ser cachorras",

Têm certeza que tais comentários não discriminam grupo algum?
Dizer que determinado comportamento sexual feminino é coisa do diabo (ou porque mais se precisaria ser curada por Deus?); chamar determinadas mulheres de cachorras (termo altamente pejorativa, comumente utilizado sim contra a sexualidade feminina)... me parece discriminação contra as mulheres! Contra a liberdade sexual. Uma representação do machismo em um grupo religioso exclusivamente feminino, o que faz doer mais pra mim.

E na parte final, como alguém bem colocou aí, a tal Sarah diz para a senhora que ela não pode se negar a fazer sexo com o marido. Tipo, hein????? "Vai na farmácia, compra um lubrificante"... é quase um "faça mesmo que não esteja excitada... se submeta sempre a vontade dele". Fique feliz por ter um peru só seu me lembrou foi Rafinha Bastos falando pra vítima de estupro ficar feliz tbm! Tenho medo destas coisas. Num passado não muito distante a nossa legislação considerava que não existia estupro do marido contra a mulher, pensamentos como o deste culto me lembram muiiiito o dos defensores desta época.

Não sei se vejo coisas onde não existem. Talvez exagere, talvez não. O preconceito contra um grupo não tem de ser expresso de forma direta. O machismo não está apenas em quem mata mulheres, está em diversas outras atitudes e julgamentos, para mim está em ideais que nos colocam como "feitas para casar" e numa posição de submissão ao homem, está em ideias que só veêm um determinado comportamento feminino como correto, porque nos tiram nossos direitos de liberdade e escolha.

Também não sei como as pessoas de seu meio se referiram ao culto, se fundamentaram ou não suas opiniões... com base em que criticaram. E concordo que as vezes quem luta contra discriminações cai por vezes nos mesmos erros. Já vi amigos ateus discriminarem religiosos, embora não tanto quanto vi o contrário, e certamente ambos estão errados.

Mas ainda assim acho que existem razões suficientes para se criticar o tal "culto das princesas" e tantos outras práticas religiosas por aí.

Diogo Antonio Rodriguez disse...

Dária,

Em primeiro lugar, obrigado pelo comentário. Pode ser sim que haja uma carga de preconceito no discurso delas. Mas está oculta. O que eu quero discutir é se não estamos criando um campo no qual existe um jeito "correto" de combater preoconceitos. Lutar pelos direitos de um não significa que se torna legítimo chamar o Culto das Princesas de "absurdo", "ridículo" ou qualquer coisa. Acho que argumentos como o do seu comentário são muito mais saudáveis para todos nós. Este meu comentário é propositalmente difuso. Queria saber o que as pessoas pensam. E o texto que você deixou aqui já fez a provocação valer a pena. Obrigado pela participação.

EneidaMelo disse...

Concordo com a Dária. A mensagem passada é discriminatória, machista, sexista e, portanto, nociva.

Que negócio é esse de "vai na farmácia, compra um k-y e dá graças a deus", gente? Estupro no casamento já deixou de ser consentido pela lei faz tempo.