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6 de set. de 2012

Sufrágio modernista


Vi no Facebook do meu irmão, mas não sei bem de onde veio. Para um voto de verdade, é Oswald de Andrade! Foi em 1950, pelo PRT (Partido Republicano Trabalhista). O slogan da campanha era “Pão – Teto – Roupa – Saúde – Instrução”. Cativante, não?

12 de jan. de 2012

O livro que dá medo



Por sugestão de Mario Vargas Llosa (mais uma), li nas férias “Madame Bovary”, romance clássico que não conhecia pessoalmente. As quatrocentas páginas voaram em poucos dias. Pouco antes de dormir, dei cabo das últimas linhas e me deitei. Sem saber, cometi um erro. Pesadelos indefinidos piscaram durante o sono todo e claro que me despertei com susto. Descobri que tenho medo de Madame Bovary. 

Flaubert fingiu contar uma comédia de costumes. Essa é a versão medíocre de seu livro. O tema, digo eu, é justamente a mediocridade e o efeito canceroso que ela tem sobre as pessoas. Não há quem se salve disso em “Madame Bovary”. O narrador, os personagens, as emoções, são todos filhos baratos de uma pretensa profundidade. 

O autor criou um universo tão afundado em sua insignificância, mas tão capaz em ampliá-la como um Bat-sinal projetado nas nuvens, que uma raiva subjacente começa a nascer conforme avança a leitura. De onde vem essa vontade de esganar os pescoços desses pequenos-burgueses? Talvez seja causado pela natureza da mediocridade. Ela não se contenta em ser e gritar, precisa reclamar o mundo como seu para continuar viva. E, por definição, a mediocridade conquista a média das pessoas, do “inconsciente coletivo”, do óbvio. Seu maior poder é o de convencer a todos (a maior parte de todos) de que toda a sabedoria necessária para viver está ali, naquele núcleo aparentemente coerente de pensamentos, opiniões e desejos. Na verdade, é um monte de pedaços desconexos e mal-ajambrados de metafísica feita de plástico. Nada mais do que convenções repetidas mil vezes até que se tornassem verdade. 

Três personagens representam o universo do livro:

O boticário: Especialista em coisa nenhuma. Um falso ilustrado que fala rasamente sobre tudo. De tanto falar, no entanto, convence a todos de que sabe das coisas. Não à toa, escreve artigos para o jornal local. 

O médico Bovary: Inofensivo até demais. Não pergunta, não questiona. Nunca está errado (quase nunca) porque nunca diz nada com firmeza. Serve de vácuo perfeito para a vaidade do boticário. Sua placidez asinina enerva sua já insatisfeita esposa ainda mais e a impele a fazer tudo o que faz no enredo. 

Madame Bovary, a esposa: É quem mais se veste dessa mediocridade. Transforma sua pouca capacidade mental e espiritual (emocional, por que não?) em tramas perversas de traição. Gasta o dinheiro que não tem em nome de um amor que sabe existir apenas nos romances baratos. 

“Madame Bovary” me causa pesadelos. Me assusta. Me mete medo porque é como um fantasma que assombra tempos distantes e ao mesmo tempo o presente. É a mesquinhez de alma irradiando-se impiedosamente pelos eixos do tempo e dos costumes, montada na mediocridade perversa que o dinheiro cria. Daquela França do século XIX até os dias de hoje, ficamos indubitavelmente mais ricos. Quem serão, então, a Madame Bovary, o boticário e o Dr. Bovary dos nossos tempos? Ainda vou perder muito sono.

2 de jan. de 2012

HIstórias com som e fúria


Todas as histórias do mundo já foram contadas. Esgotamos nossa capacidade de imaginação, pode conferir. Já na Bíblia conseguimos juntar muita coisa: religião, violência, sexo, traição, reviravoltas e até ressureição. Daí pra frente,  só enrolação. É muito difícil achar algo novo a ser narrado. É por isso que o cinema está fazendo filmes sobre quadrinhos, sobre seriados de TV. É por isso que o que vende hoje são os livros de autoajuda. Para que contar mais histórias?

Assim é, de fato, como eu ando sentindo o mundo. Um lugar de repetições, de lenga-lenga, de tragédias (na primeira vez) e farsas (na segunda). Até que terminei de ler “O som e a fúria”, de William Faulkner. Veja bem, o romance foi escrito em 1929, mas Faulkner não leva vantagem alguma. Já em sua época não havia mais sobre o que falar. Sem a internet ficava difícil constatar isso, mas era realidade.

Faulkner não reinventou a roda. Nem Quixote. Nem o livro de areia. O enredo de “O som e a fúria” poderia ter sido tecido por qualquer romancista de boteco que gosta de pagar o triplo do preço por uma porção de mandioca seca demais. O que acontece no livro é difícil de descrever, pois depende muito pouco das ações que de fato são narradas. O importante é como os fatos são contados e pensados. Ao invés de criar uma história, um narrador e personagens, o autor escreveu quatro livros que se interligam intimamente, porém são escritos em quatro estilos completamente distintos. Há ecos das mesmas visões em todas as partes, claro. Surpreende, porém, o quanto é fácil se deixar levar por cada uma dessas vozes e partilhar seu ponto de vista. Uma traz agonia, outra, dúvidas, a terceira, uma raiva sem fim, e há também a frieza da quarta voz.

E assim se conta a história de uma família no Sul dos Estados Unidos, despedaçada por segredos, preconceitos e a demência de um dos irmãos. Ele, aliás, é um dos narradores. Quase inconsciente de sua existência, mistura tudo numa só torrente de palavras: o passado, o futuro, pessoas que morreram, que foram embora e sua profunda incompreensão de tudo.

“O som e a fúria” está longe de ser um livro fácil. Como recorre muito à imersão psicológica, muitas vezes não se sabe muito bem o que está sendo dito ou pensado, não se pode distinguir desejo de ação. E é essa a virtude principal do mais famoso livro de William Faulkner. Há uma história sendo contada. Há uma trama. E isso está longe de ser o essencial. Pensemos em “como” e não em “o quê”. A exuberância do que Faulkner escreve está em sua capacidade de tornar algo que é repetitivo, insosso ou, por que não, um clichê, num magistral exercício de perspectiva.

Pode-se contar um milhão de histórias, escrever um milhão de linhas sobre alguém ou algo e não será o suficiente para que todo esse volume de suposta imaginação fique esquecido para sempre. O olhar escolhido é sempre o mais importante no fim. A imortalidade de “O som e a fúria” há que isso é verdade.

21 de dez. de 2011

Para gostar de escrever


Quem gosta de escrever, gosta de escrever e pronto. Por mais que se dê melhor em alguma forma de expressão específica (poesia, crônica, romance, reportagem), a afinidade com as palavras é algo quase espiritual. Por isso, indico um livro simples, mas cheio de referências: Cartas a um jovem escritor, do Mario Vargas Llosa, ganhador do Nobel de literatura.

Ele se dedica mais ao romance, já que essa é sua Joaquina. Mas os conselhos são proveitosos para qualquer um que admire a dura tarefa de escrever, mesmo que seja olhando de fora. Ele analisa todos os elementos que compõem os grandes livros. Como o autor situa seu narrador, se há histórias interrelacionadas, como podem haver câmbios na perspectiva. Foi tanta a empolgação que Llosa passou que acabei comprando Madame Bovary, de Flaubert, romance que nunca li e que é muito elogiado nas Cartas.

Parece que está difícil de achar esse livro. Na Livraria Cultura está esgotado; no Submarino também. As Americanas dizem ter. Só há três exemplares na pesquisa da Estante Virtual custando a mesma coisa ou mais do que um novo.

4 de mai. de 2011

Como escrever histórias

Direto ao ponto, Kurt Vonnegut ensina como estruturar três tipos de histórias básicas. Serve para livro, roteiro, conto etc. Quase um número de stand-up (mas dos bons). Em inglês.

19 de mar. de 2010

Invisível e "esquecível"

Paul Auster lançou "Invisible" no ano passado nos EUA e Europa. Ainda não foi feita uma tradução (nem do penúltimo, "Man in the dark"), mas já dá para comprar na Livraria Cultura. Sou fã dele, estou lendo tudo, comprando pouco a pouco. Terminei de ler "Invisible" há uma semana.

A metalinguagem é a marca dele e sempre vai ser, porque também é um de seus trunfos. Ele sabe do que está falando, das dificuldades em escrever, dos processos mentais que envolvem crias histórias, do impactos que elas têm depois que nascem. "Man in the dark" é supremo nisso, em entrelaçar linhas narrativas díspares, mas que dependem de sua ligação para fazerem sentido. Ali, um escritor/professor de literatura (este outro personagem recorrente em Auster) imagina um futuro alternativo para o mundo pós-onze de setembro. Mas essa ficção fala com ele e precisa de sua ajuda para sobreviver, pois ela está um tanto fora de seu alcance. Vale a pena ler.


Em "Invisível", a mesma tentativa é feita, mas dessa vez, como menos sucesso. Primeiro, porque os conflitos que o estudante de literatura e aspirante a poeta Matt Walker enfrenta não são muito interessantes. Segundo, porque a meta-linguagem foi usada mais como formato a ser seguido do que tempero do desenrolar dos acontecimentos. Outro problema, alguns exageros que Auster normalmente não comete. Surpresas exageradas, tragédias insuspeitas demais. Normalmente, a graça dos romances dele reside em saber que mesmo os fatos inesperados estão calcados em pequenas plataformas de realidade, que ora se elevam, ora não. "Invisível" tenta contemplar muitas pequenas questões formais, tenta se resolver como livro, mas esquece de dar consistência à vida ficctícia ali contida. Os saltos são feitos a partir do nada, sem um impulso dramático que lhes dê coerência. Assim, mesmo fatos chocantes ficam vazios, porque eles não estão entrelaçados com a história, estão costurados com linha grossa conforme passam os capítulos.

Esperei pela "emenda perfeita" (geralmente executada por Paul Auster) até o fim, mas ela nunca se mostrou. Pior, o final se dá num absurdo apelativo, que desce a ladeira para dar com a nossa cara num muro de tédio. É triste ver que o autor de "A Trilogia de Nova York" está perdendo a mão. Ou pior, não tem mais nada a nos contar. Bom, pelo menos ele trocou a desgastada foto que normalmente ilustra seus livros.