18 de jun. de 2012

O Atari Teenage Riot é invendável e imprestável

O rock está na moda, sem dúvida. Nunca ouvi tantas guitarras na vida. Os comerciais tocam Black Keys, David Bowie e Queen; eventos de música com múltiplas bandas vendem dezenas de milhares de ingressos em poucas horas. Editoriais de moda de revistas adolescentes ensinam a combinar uma camiseta baby look do Nirvana com um sapato de salto alto do Louboutin. 

E como tudo que entra no “esquemão” do mercado de consumo, o rock acabou padronizado. Não choca mais. De trilha sonora da revolta, da inconformidade (“Am I a creep? Am I weirdo?”), passou a ser som de fundo, enquanto jovens descolados com óculos nerds tomam suas cervejas de garrafa verde e postam fotos retrô em redes sociais. Como o mercado precisa de novidades o tempo todo, os dias do rock estão contados. Fiquem espertos, pois o dubstep é o próximo alvo. 


Será que a música, o chamado “rock”, perdeu sua capacidade de causar impacto? Virou item de prateleira? Sexta-feira passada provou que não. Depois de mais de dez anos, os alemães do Atari Teenage Riot voltaram ao Brasil. E provaram, no show que fizeram no Cine Joia, que nem tudo pode ser colocado á venda. Comecemos pelo som do ATR, impossível de ser comercializado de maneira dita normal. A mistura de punk, techno, drum’n’bass, jungle, industrial e inferno auditivo não toca em rádios normais. Não serve de trilha sonora para filmes normais. É um som muito agressivo. E politizado (anarquista, anti-fascista) demais para ser digerido como se fosse mais um biscoito amanteigado na doceria da cultura pop.

Trecho da primeira passagem do ATR em São, em 1998:



Foi isso o que se ouviu na sexta. O ATR não alivia ao vivo. O que parecia barulhento e agressivo nos discos, é dez vezes mais ao vivo. Se as canções (será que se pode dizer isso?) eram pesadas há mais de dez anos, parece que o grupo comandado por Alec Empire se esforçou por deixá-las ainda mais inaudíveis em 2012. Tive inclusive a impressão de que muitas pessoas foram embora depois que o show começou, mas não posso provar. Mas, caso seja verdade, atribuo isso á violência musical. Musical, é claro, já que foi um show muito pacífico, apesar das constantes invasões do público ao palco (sempre respeitosas: no máximo, as pessoas queriam dar um abraço nos integrantes do ATR e pular de volta no lago de gente). 



O pessoal invade o palco do ATR pela primeira vez na sexta 

Muito se fala sobre as coisas “hipster” do mundo. Esse grupo seria uma espécie de vanguarda, que dita o que será a tendência antes de todos. Mas esse pessoal nada mais é do que um mercado, como outro qualquer, que consome certos bens, desde que devidamente chancelados por alguém (por alguém mais hipster do que eles mesmos) e preparados para o consumo. Por isso, a impressão que se tem é de que sempre existe uma nova banda a ser “desbravada” antes de todo mundo. Mas, via de regra, essas bandas são apenas um produto, um empilhado de referências corretas, “cool”. Ou seja, adequadas para um certo tipo de costume, apesar de muitas vezes disfarçadas sob a etiqueta do “exclusivo”, “customizado” e etc. 


Talvez por isso o ATR não tenha sido escalado para um grande festival com filial no Brasil. Talvez por isso tenham vindo para cá apenas duas vezes. E, com certeza, é por isso que o Cine Joia não tenha ficado lotado para o show de um dos grupos musicais mais importantes dos últimos anos (e de todos os tempos, ouso dizer). Com diria Vicente Matheus, o som do Atari Teenage Riot é invendável e “imprestável”. Para ser vendido como parte do mercado hipster não serve mesmo. 

Ouça o novo disco do ATR, "Is This Hyperreal?" (2011) na íntegra:

27 de mai. de 2012

Domingo é fado



Eu não sabia que gostava de fado até ouvir a coletânea "Fado - World Heritage", CD duplo com os principais artistas portugueses do gênero. Horas de sofrimento, sotaque carregado e notas metálicas choradas pelas guitarras portuguesas das 40 faixas da compilação. Como o domingo em si já é um fardo, escolhi uma faixa mais leve para comemorar a depressão semanal. A bela Ana Moura cantando "Caso Arrumado". Porque domingo é fado.

22 de mai. de 2012

Sem tédio


Lendo a descrição do que é o disco “Silfra”, de Hillary Hahn (violino) e Hauschka (piano), tive medo do tédio que ele poderia provocar: dois especialistas em música clássica improvisando livremente, numa gravação ao vivo. Parecia uma roubada certa.

Depois, descobri que Hahn já esteve em turnês com o cantor de folk Josh Ritter. Em seguida, li que antes de entrarem no estúdio, a dupla passou dois anos se encontrando para tocar junto, uma preparação para “Silfra”.

Veio uma coragem maior e ouvi o novo álbum inteiro, sem pausar nem me aborrecer. Hahn e Hauschka souberam transformar a suposta falta de regras em um aliado. A liberdade de seguir o que lhes pareceu apropriado fez de “Silfra” uma trilha sonora sem filme.

Virtuosismo e a “arte pela arte” não são as guias do disco. Há uma sabedoria acumulada, alimentada pela preferência deles por Bach e Tchaikovsky, dois compositores que gostam de um bom refrão e frases musicais de efeito. E, claro, a experiência de Hahn com a música “normal” deve ter seu peso, afinal, nada melhor do que ter um limite de três ou quatro minutos para aprender concisão.

Temos um disco de música com tons de “erudita”, mas, sem hesitar, passeia pelo jazz e cita até o pós-rock (de bandas viajantes como Sigur Rós). Um disco que vale o risco do tédio, que nunca aparece.

Ouça “Silfra” no site da NPR.

4 de mai. de 2012

Vida Simples - Pescaria


O tema da matéria estava dado: o que a pesca pode ensinar mesmo a quem não é adepto dessa atividade. Era necessário achar algo que interessasse aos leitores da Vida Simples e ainda contasse uma boa história. Pensei em me aprofundar na técnica para entender melhor como funciona a cabeça de um pescador, mas era muita informação a ser apreendida. Coisa que leva anos para aprender não se ensina em alguns dias.

Vasculhando minhas memórias e conversando com especialistas no assunto, decidi que o melhor seria achar personagens que encarnassem o espírito atento de um bom pescador. Um deles veio da minha infância. Passei incontáveis manhãs de finais de semana assistindo ao bom e velho Pesca e Companhia, apresentado pelo "encantador de peixes" Rubinho de Almeida Prado, o Rubinho. Ele foi um dos responsáveis por tornar a pesca esportiva um esporte rentável e profissional. Rubinho largou a carreira de economista no Citibank para fazer o programa. E nunca teve tempo de se arrepender.


Difícil foi chegar a Peter Santos Nemeth. Primeiro porque nosso encontro foi em Ubatuba, a mais de 200 quilômetros de São Paulo. Peter largou a carreira de publicitário formado e empregado para dar um passo corajoso: virou caiçara. De verdade. Pescava de canoa, tinha (tem) uma criação de mariscos e aprendeu os modos de vida do povo local. Assim viveu por seis anos, já presidente da associação de pescadores artesanais da Praia da Enseada.

Duas histórias que trazem em suas essências a necessidade de mudar e a vontade de estar perto da água, dos peixes e de tradições que pouco compreendemos. As duas motivadas pela pesca, uma atividade tão antiga quanto é ser um humano. Você deve estar se perguntando sobre os porquês e os "comos" de Peter e Rubinho. Bom, isso só na revista Vida Simples de maio, que está nas bancas.

2 de mai. de 2012

Bobagem da semana - 100 anos em 26 assobios

Um pessoal chamado cdza fez esse vídeo juntando 26 momentos assobio de músicas famosas. Várias delas são clássicos das antigas e outras mais novas. Bela maneira de perder três minutos. Vi na The Atlantic.


26 de abr. de 2012

Salvem os cabelos brancos do Nada Surf

Foto: Cine Jóia
A cabeça prateada de Matthew Caws carrega bem mais do que seus cabelos brancos. Com quase vinte anos de carreira, o Nada Surf que visitava o Brasil pela segunda vez era ainda melhor que o da primeira, em 2004. Mais discos, canções, integrantes na banda (um guitarrista e um tecladista foram incorporados), mais fios alvos e, especialmente, mais força no palco.

Cada vez mais longe do único hit verdadeiro, "Popular", que estourou nos EUA no começo dos anos 90, o Nada Surf está conquistando seu lugar no time de bandas extremamente competentes, quase indispensáveis de se ver ao vivo. Acostumados às limitações devido a uma carreira toda tocando em clubes pequenos e festivais do segundo escalão, driblaram bem os problemas de som e o falatório incessante no Cine Jóia.


Calejados, os nova-iorquinos mesclaram bem os antigos sucessos com os temas mais adultos do novo disco, "The Stars are Indifferent to Astronomy". Foram cinco canções do álbum. Todas funcionaram muito bem, apesar de serem visivelmente desconhecidas para o público.




"When I Was Young", do novo disco do Nada Surf

Foram especialmente cativantes no falso bis, quando puseram o público para dançar ao som da lenta "Inside of Love" e na última música do show, "Blankest Year", uma apoteose com palavrões em inglês gritados pelos presentes. Um domínio da situação que é típico de quem já viu de tudo e passou por otras tantas. 

Os problemas técnicos já mencionados não conseguiram esconder a bela voz aguda de Caws, que não falhou nenhuma vez. Em 2004 foi diferente. Com um penteado à la Luke Skywalker, o vocalista gastou suas fichas no meio do show e segurou o resto das canções com a ajuda dos backing vocals e de sua guitarra. Agora, com o apoio do teclado e de uma guitarra solo, não precisa mais gritar e consegue conduzir as melodias doces do Nada Surf sem grandes problemas.

A idade faz bem ao Nada Surf, uma banda que envelhece com rara dignidade no rock. Irônico é pensar que tudo começou com um sucesso adolescente, a tal da "Popular" de outra década. Salvem a cabeça prateada de Matthew Caws.

30 de mar. de 2012

Sem conexão

A primeira tela deslizou rápido para dar lugar à segunda, quase igual. Traços do indicador embaçaram os pequenos ícones. Ela se sentou devagar, puxando a mochila para a frente do corpo. Ficou imóvel por dez segundos, procurando sinal com o canto dos olhos. Pôs-se a revirar o bolso maior, buscando algo no fundo. Os ícones brilhavam e se expandiam, minimizados e maximizados. Um botão com ondas se acendeu. Procurou, procurou, procurou, mas o telefone não conseguiu achar rede. Sem conexão.

- Você vai fazer a prova?
- Não

Nada mudaria sua feição e postura. Enterrado na cadeira, ele continuou a coreografia sobre a tela brilhante sem pestanejar. Emergiu do zíper amarelo o embrulho prateado, quadrado. Sanduíche de pão de forma, embrulhado em quatro dobras bem-feitas. Escondido pelos óculos feios e antiquados, os olhos dela jogavam a linha naquele mar frio de um olhar fixo. As duras correntes do vidro engordurado prenderam o mármore negro impaciente do rapaz.

O quadrado de pão diminuía e o ícone se acendia e se apagava. Silêncio. Sem conexão. Pessoas desceram do elevador, uma luz se acendeu no fundo do corredor. Rede três gê, rede wi-fi, nada. Melhor desligar e ligar de novo. Uma mordida suave. Anzol perdido jogado entre as cadeiras. E o mar congelado. Nada. Sanduíche sumia, continuavam serpenteando as redes, as linhas e os olhares sem direção.

Desceu vagarosamente o último pedaço de pão recheado, a folha se tornou bolinha. Uma estranha escuridão se operava ao redor da tela suja e dos olhos de vidro dele. Buraco negro onde que deixava tudo para fora, a mochila de um lado e a mão com alumínio do outro. Levantou-se e tomou uma última coragem:

- Que péssima nutricionista que sou. Aconselho as pessoas a comerem bem e estou aqui, jantando um sanduíche. Está errado.

Abriu-se de novo a porta do elevador, o ruído se sobrepôs ao da voz dela. A mochila foi para as costas e ela resolveu recolher a linha. Continuava a brilhar a tela, insistente: sem conexão. E nada.