26 de jul. de 2009

Tensão

Em cinzeiros com a boca para baixo procuro
Em garrafas que restam, que deveriam bastar
Estão as poucas respostas;
Eco, onde

Num leve sopro de histórias mal-contadas
Estão o resumo do óbvio, do longe
Não sou a sombra que emula
Construo o ato místico que persegue
Almas, onde

Haverá o frio em tempos de resolução
Saberão meus fios lembrar do sombrio
Condeno o sorriso, casto e disposto
Raiva, onde

A qual caminho se dirige o que é justo e concreto,
Pergunta a sabedoria, mal-nascida;
Onde será, responde o que se foi
Aonde terão ido o leve acariciar e os suspiros
Falta, onde

24 de jul. de 2009

Recomendo: Forgotten Disc Friday


No espírito da sexta-feira, passo uma recomendação adequada até no nome: o blog Forgotten Disc Friday. O último dia da semana é o único em que eles postam, e sempre resgatam um disco antigo dos bons. Variam os estilos, mas geralmente é rock. Hoje, por exemplo, é a vez de Babylon by Bus, do Bob Marley & The Wailers.

Mas não se trata de simples nostalgia. São enormes os posts, que explicam o porquê do disco ter sido resgatado, o contexto em que foi lançado, e ainda se pode ouvir algumas faixas - sempre com a recomendação de que se compre o álbum. Antigamente dava para baixar todas as músicas, mas RIAA deve ter chiado.

Clique!
Forgotten Disc Friday

Ciao, Fellini

Como é de praxe, aqui vai uma matéria publicada no site da Trip. Essa é bem recente, dessa semana, terça-feira para ser bem exato.

Link original AQUI.

Mais um adeus de Fellini



Cadão Volpato discorre sobre o adeus do Fellini e a diferença entre ele e Frank Sinatra

21.07.2009 | Texto por Diogo Rodriguez Fotos Divulgação

Os paulistanos do Fellini, em foto de 1984

Os paulistanos do Fellini, em foto de 1984

Uma das principais bandas alternativas brasileiras nos anos 80, o Fellini se despede deste mundo cruel. Mais uma vez. Dessa vez parece ser definitivo, segundo o que diz Cadão Volpato (vocal e gaita) em entrevista à Trip. Ou pode ser que não, pode ser mais uma “jogada de marketing” de uma banda que sempre foi independente e deu adeus já no seu primeiro disco (O Adeus de Fellini, de 1985). A mistura de pós-punk e música brasileira tem data para acabar. Com dois shows marcados pela frente – em São Paulo no dia 22 e Curitiba no dia 26 de julho, Volpato conta que a internet foi usada para escolher o repertório e faz uma avaliação dos 25 anos de carreira da banda.

Porque o adeus derradeiro do Fellini agora? Por que não antes ou depois?
É um golpe de marketing [risos]. Brincadeira, vou explicar: a gente não toca desde 2003, quando a gente fez o TIM Festival no palco principal. Em 2007 eu fiquei pensando: “pô, vai fazer 25 anos, uma data redonda, não seria bacana a gente se encontrar?”. Somos muito cobrados ao longo dos anos, desde que [o Fellini] virou cult nos anos 90, “pô, quando é que vocês vão tocar?”, “vão voltar?”. Não se trata de uma volta, não existe essa possibilidade, não está nos planos, porque o Thomas [Pappon, baixista] mora em Londres, ele é radicado em Londres, e uma banda não existe se o principal compositor mora em Londres. É um adeus por isso, porque você nunca sabe quando vai voltar a tocar. O meu feeling é o de que dificilmente a gente vai se encontrar de novo.

Então não é de fato definitivo.
Você nunca sabe. Eu já falei que era definitivo uma seis vezes. As coisas são assim mesmo com o Fellini.

Depois de 25 anos, como foi fazer rock no Brasil?
Fazer música no Brasil é uma coisa meio difícil. Olhando para trás com um olhar mais crítico eu digo: valeu a pena ser independente do ponto de vista espiritual. Do ponto de vista financeiro é inócuo porque a gente jamais ganhou dinheiro com o Fellini. O único cachê real que tivemos na vida foi no TIM Festival. Valeu lutar por aquilo que a gente acreditava. Sempre tivemos e escrevemos exatamente o que a gente quis. Nunca houve uma pressão para que a gente fizesse assim ou assado. Fizemos exatamente o que a gente quis, com toda a liberdade possível. E liberdade é uma coisa essencial para a criação. Foi uma coisa difícil, a banda acabou muito em função disso, de tanto remar contra a maré; durante seis anos ensaiando toda a semana sem saber exatamente por quê, gravando discos com os quais não se ganhava dinheiro, fazendo contratos ridículos que não nos davam nada e não vivendo de música – que é uma opção natural no Brasil. Se a gente vivesse na Inglaterra hoje, [o Fellini] seria uma banda respeitada.

Vocês nunca cogitaram uma turnê pela Europa? Existe um público lá. Uma das suas músicas chegou a tocar no programa do John Peel [disc-jóquei da rádio BBC].

Ah, cara, a gente está batendo nos cinquenta anos, isso não existe mais. Imagine você velhinho viajando e fazendo gigs. Eu vi a turnê do David Byrne, é de rolar de rir. Ele pula de Varsóvia [capital da Polônia] pra Moscou no dia seguinte, de ônibus [uma distância de aproximadamente 1.200 quilômetros]. Meu, não rola . Imagina você tocando em uns pulgueiros em Amsterdã, nem pensar, isso não existe! A vida de músico é muito dura, a não ser que você seja o Frank Sinatra. Como eu não sou o Frank Sinatra e ele já morreu, não existe a menor possibilidade . E ainda por cima, tô resfriado, como Frank Sinatra estava quando o Gay Talese escreveu sobre ele [risos].

Cadão Volpato, vocalista do Fellini

Cadão Volpato, vocalista do Fellini

Conte a história do show ter sido montado com a colaboração dos fãs, pela internet.
Existe uma comunidade do Fellini no Orkut que fica discutindo o sexo dos anjos. Eles fizeram umas eleições das músicas favoritas e fomos lá e simplesmente pegamos [as escolhidas]. E aquelas eram de fato as mais bacanas de tocar. Escolhemos as músicas que de fato gostamos de tocar, as que não poderiam faltar e acrescentamos duas surpresas, que abrem e fecham o show e que nós só tocamos uma vez na vida. Partimos do gosto popular e enfiamos os elementos “fellinianos”.

Algum comentário a respeito do fato de que o Fellini vai “encerrar” a carreira no Studio SP, um lugar conhecido por receber música nova?
É engraçado, é um paradoxo, mas a gente sempre viveu de paradoxos [risos]. É uma característica [nossa]. Começamos dando adeus. Faz todo sentido porque é uma das melhores casa de São Paulo para tocar. Em 2005 eu inventei uma carreira solo e descobri a indigência que era tocar em São Paulo e isso não mudou muito. Ou você é grande ou você é pequeno, não existe o mediano. Então, pô, é uma dádiva ter uma casa como o Studio SP porque você tem condições, tem público, coisa rara. Passei por uns pulgueiros naquela época que eram inacreditáveis. Pensei “nunca mais, não quero mais tocar na vida”. Se você não toca no SESC, você tá frito.

Então não mudou muito em relação aos anos 80?
Nos anos 80, vou te dizer, tinha mais possibilidade. Tinha um monte de casas florescendo em cada esquina – que fechavam no dia seguinte, mas elas aconteciam. Eram lugares mais adequados ao nosso espírito, uma coisa mais punk. Agora, hoje em dia é uma indigência que não tem sentido. As casas não oferecem a menor condição, equipamento, um dinheirinho que seja de ajuda de custo. Você vai lá tocar de graça, é sempre ridículo, sempre parece que estão te fazendo um favor. Em qualquer lugar da Europa, isso não rola. Por mais que as pessoas insistam, não é uma cidade da Europa.

E vão ser só esses dois shows [em São Paulo, dia 22 de julho, e em Curitiba, dia 25]?
Nossa turnê mundial termina em Curitiba, no sábado [risos]. Lá, a gente vai tocar num festival de [bandas] independentes, o que também faz todo o sentido. Nós somos uma espécie de vovôs independentes.

Vai lá: confira os detalhes sobre as apresentações do Fellini no blog Vai Lá.

17 de jul. de 2009

Publicadas > Autorama

A pista de largada antes de uma bateria do Campeonato Paulista de Automodelismo de Fenda

Essa foi a primeira matéria pela Trip. Apesar de simples, ela me deu trabalho porque só podia ser feita aos finais-de-semana. Rodei a zona sul inteira conversando principalmente com os donos das pistas; gente brincando foi difícil de achar. Quando tinha um quarentão botando o carrinho enferrujado para correr, era um golpe de sorte. É um hobby que vai ficar ainda mais restrito. Gasta-se muito dinheiro e hoje em dia não tem a menor graça correr.

Acabei achando um campeonato para cobrir, o Paulista, que me deu personagens, mas mostrou que a coisa anda mal das pernas. A etapa que presenciei foi nos confins de São Bernardo do Campo. Não havia mais de 20 pessoas, todas do meio autoramabilístico. Estavam todos lá para correr, o público e a renda ficaram na casa do zero.

Eles não estão para brincadeira

O autorama já foi brinquedo, mas agora é coisa séria - até demais
Oito carros estão posicionados no grid de largada. Os boxes estão vazios, mas preparados para o pit stop. Em pé, os pilotos olham atentamente para o fiscal da prova, esperando o sinal para largar. Nenhuma luz se acende, e as máquinas disparam na reta em direção à primeira curva; um “valendo” faz as vezes de luz verde. Começava naquele domingo mais uma das baterias do Campeonato Paulista de Automodelismo de Fenda.
(Continue lendo)

15 de jul. de 2009

Essa merda


Os planos de pular de para-quedas em algum aniversário desses que estão por vir (no próximo ele vai, jura todo ano) escondem uma micro-história de vinte anos, talvez. Variava a idade entre os cinco e seis anos, se bem que não faz muita diferença. Ele era muito pequeno. Ficou um pouco menos criança depois desse dia, o que certamente fez contrastar seu físico (já de óculos, imagino) com as três palavras que voaram por aquele parque de não se sabe onde como se fossem bumerangues.

Tenhamos como dado que um ser de meia década de fluência vital seja iniciante em tudo o que se apresenta a sua frente. Mesmo a repetição é algo novo, já que repetir, numa vida de novidades, é algo que nunca havia acontecido antes. Já sabemos que era sua primeira vez na roda gigante. Não é possível saber com precisão o ele pensava daquilo. Provavelmente nada. O único dado devia ser o absoluto desconhecimento do que estava para acontecer. Prova disso são os bumerangues que zuniram a uns 5 metros de distância do chão de terra batida.

Pois que a roda começou sua sina. Uma vez no alto (não tão alto assim, era um parque bem mambembe), o garoto começou a somar os fatores. De uma só vez, fizeram sentido as formas aprendidas na escola e as advertências paternas a respeito de parapeitos (naquela noite, aprendeu mais de física do que em toda a vida). Spinning wheel, sempre de volta ao topo. Os pequenos óculos pararam de refletir a luz por cinco segundos:
- Para essa meeeeeeerda!

A roda lentamente virou círculo e o parque parou para olhar o quanto pequena era aquela boca-suja desesperada, tão jovem.

Ainda não pulou de para-quedas e nem fez a tatuagem.

14 de jul. de 2009

Eles apelam, mas eu gosto

Eles são feios e bobos, chatos, não

Post dedicado a Marcela Lage e Gabriela Luz

Não entendo muito bem o porquê de eu ser fã dos argentinos da Bersuit Vergarabat. No único show deles em que estive (ano passado, em Buenos Aires), lá pelas tantas aconteceu uma performance bizarra durante a canção "El Lechero" ("O Leiteiro"): um stripper vestido de leiteiro ficava simulando sexo com uma dançarina. Maior mau gosto. Ao mesmo tempo, eles fazem músicas como "Vuelos", sobre os desaparecidos durante a ditadura argentina - uma bela letra:



Ou ainda, uma puta canção pop latina com uma letra meio nonsense, "El Viejo de Arriba":



Resumindo, eles são zuados de fato, vulgares, apelativos muitas vezes, mas sabem o que estão fazendo. Tudo isso para dizer que o vocalista da banda, Gustavo "Pelado" Cordera, acabou de lançar um disco solo. Aqui está o clipe (que não é apelativo, está mais para o coxinha, outra característica da Bersuit):



Enfim, Bersuit.

Homenagem tardia ao Dia do Rock

O José Ramos Tinhorão acha que o rock, em particular sua versão brasileira, nada mais é do que um produto de dominação colonialista capitalista. Quem sou para discordar disso? Bom, tá bom, vou discordar. Pode até ser que o rock seja (ou tenha sido) mesmo um produto destinado ao consumo de uma pequena parcela da população. Mas hemos de convir, caro Tinhorão, que colocar a Tropicália e os avós de Sandy & Jr, Tony e Celly Campello, no mesmo balaio é forçar a barra: