14 de ago. de 2010

Meus enigmas, caro maestro

O professor de literatura disse que meus escritos são enigmáticos demais. Recebi textos corrigidos com anotações em vermelho dizendo "não entendi", "elíptico demais". Fui ter como ele, tentei explicar os motivos, mas os vermelhos não cessaram. Enigmas banhados em sangue.

Depois do almoço, fumando e pensando em digerir a berinjela chilena, perguntei aos meus textos o porquê de não quererem se revelar. "Do que têm medo?" "Escondem-se de algo?" O vermelho persistia ao lado do café servido em copo americano. Respostas se confundiam com o ruídoo de livros natimortos, canções incompletas , mulheres-memória pedindo outra chance. Continuava a pergunta:  "O que você quis dizer com isso?". "Pavões, mulheres nuas vivendo a tensão do toque, homens-cebola; do que se esconde?".

Não sei. Respirei fumaça alheia. Engoli o resto do copo e saí apressado, fugindo das respostas em agonia. Também não sei do que fujo, professor. O texto corre paralelo ao desdobrar dos dias, ao bocejar constante no escritório e de palavras que nunca serão minhas. De dia, o conceito, à noite a paixão extenuante. Acho que é isso.

De que são meus textos, professor?
Sintaxe, observações precisas? A engenharia do parágrafo não me diz respeito. Vivo entre gritos, suspenses inequívocos, noites alertas, onde inexiste texto, a não ser no claustro do dizer encomendado. Durante o dia, os nomes se impõem sem dúvidas em discussões unilaterais que deixam presas minhas mãos. A liberdade aterroriza à noite, cinco horas de possibilidades mortas num prato sujo de feijão. Não tenho, caro professor, como me explicar.

Resta fazer a súplica ao que explode nos poucos intervalos para o café. Compradas por quarenta horas semanais, as ideias não sabem ainda seu próprio nome nem são senhoras da substância. Tantos livros, professor, músicas, versos esquecidos, redenção e a cabeça repousada num colo quente. O enigma persiste pois tece o espírito que escorre entre os dedos. Há o homem mecânico, caro mestre, e há quem tente explodir de uma só vez.

O que resta, então, é morrer pelo ofício de transformar angústia em artesanato.

6 de ago. de 2010

Homenagem

"And by the way, if the revolution comes
please take my rifles, take my guns
you take my place because you are my son"

5 de ago. de 2010

O hospital no concreto

Estava úmido e fazia frio, como nos últimos dias. Olhando ao redor, o pátio aberto parecia um hospital de campanha, as luzes do poste refletidas na lâmina formada no chão. Com as costas no muro, eu tentava entender o que se passava. Olhei para baixo, percebi que estava sem o coração. Na mão direita, um caixa de gelo fechada. Assim fiquei por mais uns trinta segundos quando resolvi abrir a caixa vermelha para espiar o que havia dentro. Um pouco de gelo, um saco plástico com um volume escuro dentro. Ninguém me disse, mas era meu coração. Como tinha ido parar ali? Sabia, sem uma palavra ter sido dita, que eu estava prestes a morrer. Separado do coração, como um boneco. E segurando-o nas mãos, em seu caixão de gelo e plástico.

Pateticamente, comecei a fazer uma massagem, cardíaca no músculo extirpado. Sem saber o que aconteceria e o porquê de terem me arrancado o núcleo do peito. Não foi preciso insistir muito, senti um pulso na pele da mão. Agarrei o coração e vi que batia decidido. E agora? Algum médico tinha que me ajudar, eu poderia viver. Por que eu tinha de morrer sem nada no peito se o coração estava funcionando? Corri pelo concreto procurando alguém, mas só fazia mexer as portas de tecido das tendas. As enfermeiras só olhavam para mim e nada diziam. Perguntei por médicos, cirurgiões, doutores, sem resposta. Ao longe via que o prédio do hospital estava próximo e corri para lá.

Tudo deserto. Luzes acesas, salas abertas, mas os corredores não viam movimento. Precisava reparar aquilo, não podia morrer com um coração batendo nas mãos, mas ninguém queria me ajudar. Cadê os médicos, cardiologistas, cadê os filhos da puta que me fizeram esse rombo no peito? Quanto tempo será que havia? Fiquei desacordado durante muitas horas? Por qual motivo me largaram num muro, segurando o que foi extirpado de mim? Corria, corria, sentia um oco plástico dentro do peito, desespero: cadê os médicos?

E essa noite estranha, esse hospital com cara de tragédia, as camas espalhadas pelo chão, tendas azuis mal-armadas no estacionamento, e esse maldito prédio vazio? Quem me deixou aqui, de onde veio toda essa gente que sumiu? Ele ainda bate, chacoalhando o gelo, esticando o saco plástico. Corro para todos os lados, mudo de direção, não entendo o que acontece. Abro a caixa, tiro meu coração de dentro do plástico e o levanto para alto: alguém pode me ajudar, por favor?

29 de jul. de 2010

Fuck Yeah Blues

Danny Overbea, artista da Chess. Tão desconhecido que não tem verbete na Wikipedia. Gostava de café, o que conta muitos pontos a seu favor.

18 de jul. de 2010

Minuto de silêncio: Espanha

Hoje, 18 de julho, é o dia do começo da Guerra Civil Espanhola (1936 a 1939). Mais de 200 mil pessoas morreram durante os combates que culminaram com a ascensão dos fascistas ao poder. A Alemanha de Hitler e a Itália de Mussolini comprovadamente ajudaram os nacionalistas, fornecendo armamento, veículos militares, financiamento e pessoal qualificado. A ditadura de Francisco Franco, general nomeado governante supremo da Espanha durou até 1975, ano de sua morte.

Wikipedia
Brittanica on-line
Livro: "The Spanish Civil War", de Andrew Forrest
Pôsteres da Guerra Civil Espanhola

13 de jul. de 2010

Ukulele band

Um ukulele, uma drum machine, um microfone e barulhos. É disso que os Tune Yards precisam para fazer música de ótima qualidade. A linha melódica é simples, repetitiva e consistente. A voz domina a canção junto do baixo que além de dar o tom, segura a batida. Lindo. E simples.

Ouça :


http://www.myspace.com/tuneyards

11 de jul. de 2010

Eles vieram da favela

Lê-se no artigo "A nação rubro-negra e seus bad boys" na revista Época desta semana:
Poder, dinheiro, estrelismo, vaidade, tudo isso sobre à cabeça de muitos jogadores que saíram de favelas
E à cabeça de tantos outros, por que não sobe? E os outros milhares de jogadores que saem de favelas, mangues, cidades pequenas e pobres para jogar na Europa, no Corinthians, no Grêmio, o que acontece com eles? A autora parte do pressuposto de que o Flamengo é permissivo em relação à folga ou à indisciplina da geração de "bad-boys" que vem fazendo parte dos plantéis do clube nos últimos anos. Talvez, só talvez, esse não seja um problema geral? Talvez, só talvez, não existam os meninos maus em todas as áreas? Talvez, só talvez, também não existam pessoas que tentam e conseguem viver de maneira correta, sem quebrar leis, matar pessoas, ter envolvimento com o tráfico de drogas?

Generalizar é sempre perigoso. Procurar padrões em fatos do passado também. As acusações ao goleiro Bruno são terríveis. Caso a Justiça confirme sua culpa no sumiço e suposto assassinato da moça, será um choque terrível para o futebol e o Flamengo. Mas tenhamos cuidado. Muito cuidado.

Os desequilíbrios são gerais. Jovens universitários com dinheiro são presos traficando drogas. Jornalistas estáveis assassinam esposas. Advogados de "bem" dão sumiço em namoradas. Não tentemos dar um único sentido às coisas. Generalizar é uma atitude anti-democrática. Explicas as contradições humanas é uma atividade extenuante e que nem sempre gera explicação alguma.

Tratemos nós mesmos de tentar educar nossas crianças, não deixando a cargo dos "ídolos que inspiram" a tarefa de ensinar os valores que nos são preciosos. Tenhamos medo do inexplicável sem necessariamente reduzi-lo aos nossos próprios medos.