26 de jan de 2010

Na mosca

Chorei sim. Em dois ápices emocionais: quando o velhinho não consegue se comunicar com sua família e no momento em que percebi do que se tratava a peça. Pouco choro normalmente, O Garoto e filmes com velhinhos abandonados. Outro dia, numa festa, vi uma situação parecida e tive de me sentar. É medo do abandono.



Na peça também há risadas. Algumas um pouco forçadas: gays estereotipados, piadas mal-interpretadas pelo público (desacostumado a ver um homem de gravata fazer o papel de uma mulher). Relevei a irritação. Uma peça que não tem sinopse ter sessão lotada em domingo de chuva (e qual não é ultimamente?) é uma pequena vitória.

Cogito a possibilidade de o diretor ter enfeitado seu discurso sobre a peça na entrevista que fiz com ele. Nada mais justo. Esperava complicações no roteiro, maior profundidade. Tenho medo do abandono, por favor me explique, mas nenhuma resposta veio. Ótimos atores, texto rápido e insinuante, teatro para divertir. Queria Lynch, histórias em espiral sem começo nem desfecho. Não vieram. Restou um gosto de Sexto Sentido, um "aaaaaah". Bonito mesmo assim. No tom certo. Valeu o domingo, juro a vocês.

Veja a seguir, a entrevista com o diretor de In On It, Enrique Diaz. O serviço está no final do texto

Sem sinopse

O ator e diretor Enrique Diaz fala sobre In On It, peça inédita que estreia em São Paulo

07.01.2010 | Texto por Diogo Rodriguez Fotos Dalton Valério

Emilio de Mello e Fernando Eiras durante a peça In On It

Emilio de Mello e Fernando Eiras durante a peça In On It

O diretor Enrique Diaz prefere não explicar como se desenrolam as ações em In On It, peça do canadense Daniel McIvor (texto e autor inéditos no Brasil). Pudera: o texto se apresenta como a junção de três histórias “em espiral”, as quais se relacionam entre si e com o público.

Mas, para o ator e autor teatral, saber o que acontece não é o mais importante, e sim a empatia que a peça cria com o público. Parece que deu certo, já que a montagem de In On It (descoberta por Diaz num pequeno teatro nova-iorquino), encenada pelos atores Emilio de Mello e Fernando Eiras, foi bem-sucedida no Rio de Janeiro e circulou por festivais em várias cidades brasileiras.

Depois de quatro meses na capital fluminense, a peça chega no dia 15 em São Paulo (no Teatro FAAP). O diretor Enrique Diaz conversou com a Trip sobre o que em In On It pode atrair o público paulistano.

Como funciona a peça? No texto de apresentação está dito que são três histórias em espiral. O que isso significa?
Eu não posso contar tudo da peça porque o mais legal é ver como as camadas se relacionam, onde elas vão parar. Passei por isso aqui no Rio, tentar falar do atrativo da peça sem falar sobre o que é exatamente. O autor canadense (Daniel McIvor) articula essas camadas muito bem, não é só um exercício de retórica. Tem uma (história) no espaço do teatro, com os atores ali. A segunda é uma peça dentro da peça. É tem um ambiente em que não se sabe os nomes, as profissões, dos personagens. Lá na frente, entra uma terceira camada, que é o passado desses personagens, como eles se conheceram. A peça também fala do fazer artístico, a mistura entre a ficção e realidade – o que na vida de quem escreve ou cria influencia o que ele escreveu, como o que ele escreveu influencia na vida emocional dele sem que ele perceba. Existe uma quarta camada, a junção das três, e ela veicula alguma coisa. O legal nisso é que o espectador é inteligente, é através dele que essas coisas se conectam, a peça não é didática, é muito atenta com o espectador. Quem monta a lógica da história é ele.

Não tive medo de ser esquisito, complexo, é uma peça emocionante, divertida, ela não assustaria, não é a mitificação de uma coisa que é hermética

Emilio de Mello e Fernando Eiras

Emilio de Mello e Fernando Eiras

O público tem dado uma boa resposta, apesar da complexidade do roteiro?
Respostas excelentes. Depois de quatro meses de temporada sempre lotada no Rio. Acabamos a temporada do [teatro] Oi Futuro lotados, com um mês e meio de antecedência na venda de ingressos. Tivemos críticas ótimas, fizemos vários festivais em várias cidades, com uma resposta muito boa. Eu sei que o roteiro é complexo, mas a peça é muito empática, porque tem humor, drama, tem códigos que o roteiro estabelece. O público é muito bem-recebido pela peça. Não estou dizendo isso demagogicamente. O texto estabelece uma relação com o público; olha para o público, fala com o público – mas eles não têm que fazer nada. O Daniel McIvor é ator, autor e diretor, então ele tem uma experiência em teatro. As três camadas têm marcação de atuação e de luz, para ajudar a não ter dúvidas em que camada você está. Não tem confusão, tem interpenetração entre as camadas.

Você achou arriscado trazer uma peça complexa de um autor estrangeiro desconhecido para ser montada no Brasil?
Eu vi a peça montada em Nova York num teatro pequeno. Mesmo sendo complexa e em inglês, na hora eu disse: “Que legal!”. É um jogo muito interessante de dramaturgia com atuação, muito vivo. Fiquei muito engajado na peça como espectador. O trabalho que eu faço normalmente é bem experimental, Essa peça, mesmo com essa estrutura aparentemente complexa, é para um público amplo. Não tive medo de ser esquisito, complexo, é uma peça emocionante, divertida, ela não assustaria, não é a mitificação de uma coisa que é hermética. Eu não confudiria isso com uma peça popularesca ou – vou exagerar - “comercialóide”. É sofisticada, te convida a se sensibilizar.

Na impossibilidade de fazer uma sinopse – já que você prefere não revelar muitos detalhes – qual você diria que é um atrativo que essa peça tem?
[Risos] Tudo o que foi dito da peça, os comentários, as críticas, é hiperlativo. A gente teve uma carreira muito boa [no Rio], os atores são incríveis, o texto é inédito (o Daniel McIvor nunca foi montado no Brasil) e especial, e é muito divertida.

In On It
Quando: sextas às 21h30, sábados às 21h, domingos às 18h (de 15 de janeiro a 28 de março)
Onde: Teatro FAAP (Rua Alagoas, 903, Higienópolis; telefones: 3662-7233 e 3662-7234)
Quanto: R$ 40 (sex e dom) e R$ 50 (sáb)

Sentido

É manhã
Da esquerda para a direita
Vetor fluido e congelado
Raios em sentido horário aos pares para quem vem
E para quem vai

Nas margens, tanto faz
Esquerda, direita, vértices
Inércia
Pernas arqueadas empurram rodas do caos,
Deixam pelas calçadas o medo da falha

Cessam os raios, esquerda, direita
Vértices marcados no chão
A faixa de pedestres some como um portal

Em posição de vigília, como um pavão sem sua senhora
Empoleiro-me na noite e espero chegar em casa o sono
Guardo os vértices sem me preocupar com o que virá em seguida
Cegam-me mesmo de longe os olhos apressados de coisa alguma:
Zerou-se o estoque de surpresas da madrugada - ficaram pela Augusta, ou quem sabe Barra Funda

Paz interrompida às duas da manhã por um filho da puta andando na contramão